Mãe busca responsabilizar bets e influenciadores após morte do filho em MG; jovem passava noites em claro apostando

Antes de as apostas on-line passarem a fazer parte da rotina, Rafael Borges Amaral acordava às 5h para trabalhar em um lava a jato e só voltava para casa à noite. Segundo a mãe dele, a professora Vânia de Souza Borges, com o passar do tempo as noites de descanso foram substituídas por horas diante do celular fazendo apostas. Dois anos após a morte do filho, aos 26 anos, Vânia afirma que aqueles foram os primeiros sinais de que Rafael havia desenvolvido dependência em jogos de apostas. Ela busca responsabilizar empresas do setor e cobra uma investigação sobre a atuação das plataformas.

Mãe diz que influenciadores ‘seduzem e fazem parecer que ganhar dinheiro é fácil’. Segundo a mãe, Rafael trabalhava durante todo o dia, mas, ao chegar em casa, continuava apostando até a madrugada. “Ele trabalhava muito. Acordava às 5h da manhã e, às vezes, só chegava em casa à noite. Só que, quando chegava, continuava jogando. Quando eu via aquilo, ficava muito preocupada. Eu aconselhava, implorava para ele parar, dizia que era golpe, mas ele insistia em continuar. Parecia estar cego pelo vício”, contou ao g1.

As apostas de quota fixa, conhecidas como bets, são permitidas no Brasil desde que as empresas tenham autorização do governo federal e sigam as regras do setor. Em julho, novas regras passaram a exigir alertas sobre os riscos das apostas e restringiram propagandas que associem o jogo a sucesso financeiro.

A preocupação da família, segundo a professora, não era apenas com o dinheiro perdido nas plataformas de apostas, mas também com o desgaste físico e emocional. Ela relata que Rafael passou a dormir menos, e o comportamento dele começou a mudar. De acordo com a mãe, Rafael sempre foi conhecido por ser muito responsável no trabalho. Por isso, ela percebeu que algo estava errado quando ele começou a faltar ao serviço com frequência. “Ele não era um rapaz de faltar ao trabalho. Era extremamente responsável, amava o que fazia. Mas, de repente, começou a faltar para ficar jogando em casa. Eu tentava conversar, explicar que aquilo podia trazer problemas, mas ele não se convencia.”

As consequências vieram rapidamente. Segundo a mãe, o proprietário do posto onde Rafael mantinha um lava a jato rescindiu o contrato por causa das faltas frequentes. Após perder o negócio, Rafael conseguiu outro emprego e passou a trabalhar até 16 horas por dia. Ainda assim, conforme relato da mãe, continuava destinando parte do dinheiro às apostas. “O dinheiro dele a gente não via. Eu imaginava que estava indo para o jogo. Ele deixou de comprar roupas, de cuidar dele mesmo, de realizar os próprios sonhos.” Para Vânia, o vício não fez apenas perder dinheiro, mas também a saúde e a vida do filho.

O caso de Rafael Borges Amaral insere-se em um panorama mais amplo de preocupação com o impacto das apostas on-line no Brasil. O crescimento acelerado das bets, impulsionado por campanhas agressivas de influenciadores digitais e a falta de regulação efetiva, tem gerado alertas de especialistas em saúde pública e organizações de defesa do consumidor. A mãe do jovem cobra que as plataformas e os influenciadores que promovem o jogo como fonte fácil de renda sejam responsabilizados pelos danos causados a famílias como a dela.

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