O médico Allysson Dângelo de Carvalho, de 45 anos, salvou o próprio filho, Francisco, de 4 anos, após a criança engasgar com uma bolinha de isopor em São João del Rei, no Campo das Vertentes, no último domingo (12). O salvamento foi registrado por câmeras de monitoramento da residência e viralizou nas redes sociais, acumulando mais de 2 milhões de visualizações. O caso reacende o debate sobre a importância da capacitação em primeiros socorros no Brasil, especialmente em situações de emergência doméstica.
“Foi um misto de sensações. Depois de salvar meu filho, relaxei e desabei no chão”, relatou Allysson Dângelo de Carvalho à reportagem. O médico, que já trabalhou por mais de uma década no Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em Juiz de Fora e também é professor da área da saúde na Universidade Federal de São João del Rei (UFSJ), precisou realizar a Manobra de Heimlich para desobstruir as vias respiratórias do filho. “Eu era médico naquele momento, mas também era pai. O preparo e o treinamento fazem você ter uma conduta correta, eu senti a adrenalina depois de salvar meu filho”, contou.
O salvamento e a comoção
Nas imagens, após o desengasgo, é possível ver o médico em lágrimas. À reportagem, ele contou que relembrou a morte do pai, quando precisou prestar os primeiros atendimentos até a chegada do Samu depois que ele passou mal. “Passou um filme na minha cabeça porque lembrei do salvamento do meu pai. Quando meu filho bateu a mãozinha, abriu a boquinha e emitiu o som, naquele momento eu sabia que a via aérea tinha sido desobstruída. Eu falei: ‘chora, tosse’”, relatou. Segundo Allysson, toda a situação durou cerca de 17 segundos, desde o momento em que Francisco começou a se engasgar até a liberação das vias respiratórias.
Repercussão e conscientização
Depois de conversar com a esposa, o profissional de saúde decidiu compartilhar as imagens nas redes sociais com um objetivo educativo. A publicação ganhou repercussão e chamou atenção. Ao g1, o médico também contou que não esperava a proporção que o vídeo tomou, mas acredita que a divulgação pode ajudar a conscientizar outras pessoas sobre a importância de saber fazer os primeiros socorros. “Hoje temos muita informação na internet, mas muitas vezes são informações desencontradas. Em uma situação como essa, é preciso buscar orientação de pessoas capacitadas, entender o tipo de força e como fazer a manobra na prática”, explicou.
Panorama político e social
O caso ocorre em um contexto em que o Brasil ainda carece de políticas públicas robustas de educação em primeiros socorros. Embora a Lei Lucas (Lei nº 13.722/2018) obrigue escolas públicas e privadas a capacitarem professores e funcionários em noções básicas de primeiros socorros, a implementação ainda é desigual entre os estados e municípios. Especialistas apontam que a falta de treinamento em larga escala para a população em geral, especialmente em áreas rurais e periféricas, contribui para que situações como engasgos, paradas cardíacas e acidentes domésticos resultem em mortes evitáveis. O episódio em São João del Rei, ao viralizar, pode pressionar gestores públicos a ampliarem programas de capacitação, como os oferecidos pelo Samu e por universidades públicas, a exemplo da UFSJ, onde Allysson Dângelo de Carvalho atua como professor.
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