A declaração do presidente argentino Javier Milei sobre uma suposta onda anti-Argentina no cenário global é classificada como “ridícula” e “narrativa conveniente” por especialistas ouvidos pela reportagem. Para eles, a alegação serve para desviar o foco dos resultados sociais de seu governo, que afetam classes médias e trabalhadores, enquanto o país amarga o vice-campeonato na Copa do Mundo após atitudes antidesportivas de seus jogadores.
O economista Fabio Giambiagi, pesquisador do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas e autor do livro “Argentina para Brasileiros”, foi categórico: “A ideia de que há, no momento, uma espécie de onda anti-Argentina é simplesmente ridícula”. Já o sociólogo Rogério Baptistini, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, completa: “Não consigo enxergar uma onda global anti-Argentina. Na verdade, as redes digitais amplificam isso que se convencionou chamar de narrativa, construída por setores políticos que dela extraem benefícios”.
Estratégia política e o fantasma do passado
A frase “Vamos a hacer grande a la Argentina otra vez”, ecoando o lema de campanha de Donald Trump, remete a um período de superioridade econômica argentina que contrasta com a realidade atual. Esse contraste alimenta o discurso de “nós contra eles”, usado por Milei para justificar sua gestão. Baptistini aponta que a tática é clássica da extrema-direita: “criar inimigos externos e capitalizar o ressentimento”, como fizeram Trump e Jair Bolsonaro.
O papel da Copa do Mundo
A narrativa ganhou força com o futebol. A Argentina, liderada por Lionel Messi, chegou à final da Copa do Mundo, mas perdeu para a Espanha. A reação negativa da torcida mundial, no entanto, não veio da derrota, mas do comportamento de jogadores argentinos que deram as costas à comemoração dos espanhóis após o apito final. Giambiagi reconhece: “O que houve concretamente foi uma reação, compreensível, em função de atitudes anti-esportivas de um conjunto de jogadores argentinos imediatamente após a partida final”.
O economista lembra que a Argentina havia conquistado simpatia durante o torneio, por vitórias impressionantes e viradas épicas, além da despedida de Messi. Mas, segundo ele, “infelizmente esse esforço acabou sendo jogado no lixo, foi por água abaixo 15 minutos depois do encerramento do jogo contra a Espanha”.
Panorama político e econômico
Enquanto Milei insiste na tese de perseguição externa, a Argentina enfrenta desafios internos significativos, com indicadores sociais que preocupam. A estratégia de desviar a atenção para inimigos externos é vista como uma forma de manter apoio popular em meio a medidas de austeridade. No plano internacional, a relação com países vizinhos, como o Brasil, segue marcada por divergências ideológicas, mas sem evidências de uma campanha orquestrada contra o país.
Especialistas ouvidos reforçam que a ideia de uma onda anti-Argentina é uma construção política, amplificada por redes sociais, e não um movimento real. A reação esportiva, embora pontual, não deve ser confundida com hostilidade generalizada. O debate ocorre em um contexto de tensões diplomáticas globais, como a análise sobre a postura dos EUA em relação ao Brasil, e de impactos econômicos de eventos como a Copa do Mundo, que pode gerar perda de US$ 17 bilhões em produtividade global, segundo pesquisa citada pelo portal.
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