Uma brincadeira que mistura criatividade, crítica social e muito humor tomou conta das redes sociais nos últimos dias: um grupo de brasileiros, no Recife, recriou a famosa remada viking da seleção da Noruega — que viralizou após a vitória sobre o Senegal nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026 —, mas com um cenário bem diferente: um canal de esgoto a céu aberto, com ratos e tonéis de obra servindo de barco. O vídeo, que já ultrapassa 500 mil visualizações, reacendeu o debate sobre as condições de saneamento básico no Nordeste e a capacidade de reinvenção popular diante das adversidades.
A gravação mostra os participantes, vestidos com camisas da seleção brasileira e usando capacetes de obra, simulando a remada sincronizada em um tonel metálico flutuando sobre a água poluída do canal. Ao fundo, é possível ver moradores locais e, em alguns momentos, ratos circulando pelas margens. A cena, ao mesmo tempo cômica e impactante, foi compartilhada milhares de vezes em plataformas como TikTok, Instagram e Twitter, gerando reações que vão de risos a indignação.
Panorama político e social
A viralização ocorre em um momento em que o Brasil discute os rumos do Novo Marco do Saneamento, sancionado em 2020 e que prevê a universalização dos serviços até 2033. Dados do Instituto Trata Brasil indicam que cerca de 35 milhões de brasileiros ainda não têm acesso a água tratada, e mais de 100 milhões vivem sem coleta de esgoto. No Nordeste, a situação é ainda mais crítica: estados como Pernambuco, Alagoas e Maranhão figuram entre os piores indicadores do país. O Recife, especificamente, enfrenta desafios históricos com canais poluídos e alagamentos, especialmente em áreas periféricas.
A recriação da remada viking, portanto, não é apenas uma brincadeira: ela expõe, de forma irreverente, a realidade de comunidades que convivem diariamente com esgoto a céu aberto, falta de infraestrutura e descaso histórico do poder público. Enquanto a Noruega comemorava sua classificação com um gesto que simboliza força e união, os brasileiros transformaram o mesmo gesto em um grito de resistência e denúncia.
Repercussão e memes
O vídeo original, publicado pelo perfil @recifedoavesso no Instagram, já soma mais de 500 mil visualizações e foi repostado por páginas de humor e ativismo social. Nos comentários, internautas dividem opiniões: alguns elogiam a criatividade e o bom humor, enquanto outros criticam a naturalização da precariedade. “Isso é triste e engraçado ao mesmo tempo. Mostra como o brasileiro dá um jeito em tudo, mas também mostra o descaso com o saneamento”, escreveu um usuário. Outro comentou: “A Noruega tem fiordes, a gente tem esgoto. Mas a gente rema do mesmo jeito”.
O fenômeno também gerou comparações com outras viralizações recentes, como a “Remada viking da Noruega ganha versão pernambucana em canal de esgoto e viraliza com mais de 500 mil visualizações”, publicada pelo portal República do Povo, que destacou a capacidade de adaptação cultural dos brasileiros. Especialistas em comunicação apontam que o sucesso do vídeo se deve à combinação de humor, identificação regional e crítica social — ingredientes que frequentemente impulsionam conteúdos virais no país.
O que dizem as autoridades?
Procurada, a Companhia Pernambucana de Saneamento (Compesa) informou, por meio de nota, que “reconhece os desafios históricos do saneamento no estado e que está empenhada em ampliar a cobertura, com investimentos previstos de R$ 1,2 bilhão até 2028”. Já a Prefeitura do Recife afirmou que “monitora a situação dos canais e realiza ações de limpeza periódicas, mas que a conscientização da população é fundamental para evitar o descarte irregular de lixo”. Nenhuma das duas instituições comentou diretamente o vídeo viral.
Enquanto isso, a remada viking brasileira segue conquistando visualizações e virando símbolo de uma luta que vai além do futebol: a luta por dignidade, saneamento e respeito às comunidades que, mesmo na adversidade, encontram formas de celebrar a vida e a cultura.
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