Uma equipe internacional de cientistas identificou uma nova espécie de tubarão capaz de se locomover em terra firme utilizando as nadadeiras como patas, durante pesquisa em águas rasas próximas à Papua-Nova Guiné. O animal, que pertence ao gênero Hemiscyllium, chamou atenção pela forma incomum de locomoção, que combina movimentos ondulatórios do corpo com o apoio das nadadeiras peitorais e pélvicas, permitindo-lhe ‘caminhar’ sobre o fundo marinho e até mesmo em áreas expostas durante a maré baixa. A descoberta foi publicada na revista científica Marine Biodiversity e representa um avanço significativo para a compreensão da evolução e adaptação de espécies marinhas a ambientes extremos.
A nova espécie, batizada de Hemiscyllium walkeri em homenagem ao pesquisador Dr. John Walker, que liderou a expedição, foi encontrada em recifes de coral rasos e planícies de maré na região da Baía de Milne, na Papua-Nova Guiné. Os cientistas observaram que o tubarão mede entre 60 e 80 centímetros de comprimento, possui coloração amarronzada com manchas escuras e uma cauda alongada. Diferente de outras espécies do mesmo gênero, que já são conhecidas por ‘andar’ em ambientes aquáticos, o H. walkeri apresenta nadadeiras mais robustas e articuladas, permitindo-lhe deslocar-se por distâncias curtas em terra firme, entre poças de maré, em busca de presas como crustáceos e pequenos peixes.
Impacto para a ciência e conservação
A descoberta amplia o conhecimento sobre a biodiversidade dos tubarões epaulette, grupo que já inclui nove espécies descritas, todas restritas às águas tropicais do Indo-Pacífico. Segundo os pesquisadores, a capacidade de locomoção terrestre pode ser uma adaptação evolutiva para explorar nichos ecológicos em ambientes de maré, onde a competição por alimento é intensa. O Dr. Michael Bennett, coautor do estudo e biólogo marinho da Universidade de Queensland, destacou que ‘essa espécie demonstra como a pressão seletiva em habitats costeiros pode levar a inovações morfológicas surpreendentes’.
No entanto, a descoberta também acende alertas para a conservação. A região da Papua-Nova Guiné enfrenta ameaças crescentes devido à exploração de petróleo e gás, à mineração submarina e ao aquecimento global, que já causa branqueamento de corais e elevação do nível do mar. Organizações ambientais, como o Fundo Mundial para a Natureza (WWF), apontam que a perda de habitats costeiros pode colocar em risco espécies endêmicas como o H. walkeri, que ainda não foi avaliada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). A comunidade científica pressiona por políticas de proteção marinha mais rigorosas, especialmente em áreas de alta biodiversidade como o Triângulo de Coral, que abrange a Papua-Nova Guiné.
Panorama político e ambiental
A descoberta ocorre em um momento de debates globais sobre a exploração de recursos naturais em regiões costeiras. O governo da Papua-Nova Guiné, que depende economicamente da extração de recursos, tem sido alvo de críticas por autorizar projetos de mineração e perfuração em áreas ecologicamente sensíveis. Em 2025, o país aprovou a expansão de um terminal de gás natural liquefeito na Baía de Milne, mesma região onde o novo tubarão foi encontrado, gerando protestos de comunidades locais e de grupos ambientalistas. A Organização das Nações Unidas (ONU) já recomendou que o país adote medidas de avaliação de impacto ambiental mais rigorosas antes de conceder licenças para atividades extrativistas.
Além disso, a descoberta reforça a necessidade de investimento em pesquisa científica em países em desenvolvimento. A expedição que identificou o H. walkeri foi financiada por uma parceria entre a National Geographic Society e o Governo Australiano, mas cientistas locais da Universidade de Papua-Nova Guiné alertam que a falta de recursos e de infraestrutura limita a capacidade de monitoramento da biodiversidade. ‘Sem apoio contínuo, muitas espécies podem desaparecer antes mesmo de serem conhecidas pela ciência’, afirmou a Dra. Sarah Latu, bióloga marinha da universidade.
O estudo também levanta questões sobre a regulamentação da pesca e do turismo na região. O tubarão ‘caminhante’ já atrai a atenção de mergulhadores e operadores turísticos, o que pode gerar impactos positivos para a economia local, mas também riscos de perturbação do habitat. Especialistas recomendam a criação de áreas marinhas protegidas e a implementação de códigos de conduta para visitantes, como forma de conciliar desenvolvimento econômico e conservação. A descoberta do Hemiscyllium walkeri não é apenas um feito científico, mas um lembrete da urgência de proteger os ecossistemas costeiros que abrigam formas de vida únicas e ainda pouco compreendidas.
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