A Polícia Federal deflagrou nesta quinta-feira (29) a operação ‘Sem Refino’, que investiga uma rede sofisticada de fraudes fiscais e lavagem de dinheiro envolvendo contratos públicos no estado do Rio de Janeiro. No centro do esquema está uma construtora ligada ao empresário Renato Araújo, pré-candidato a deputado federal pelo PL, que firmou ao menos R$ 16 milhões em contratos para reforma de escolas públicas na gestão do governador Cláudio Castro (PL). As investigações revelaram que o grupo utilizava linhas telefônicas registradas em nome de pessoas falecidas para ocultar comunicações e movimentações financeiras, além de empregar empresas de fachada para desviar recursos públicos.
De acordo com a PF, os contratos sob suspeita foram firmados entre 2023 e 2025, abrangendo obras de reforma e ampliação em unidades escolares de municípios da região metropolitana do Rio. A construtora, que tem Renato Araújo como sócio majoritário, recebeu os valores por meio de licitações direcionadas e superfaturadas, segundo os investigadores. A operação cumpre 12 mandados de busca e apreensão em endereços ligados aos envolvidos, incluindo imóveis de Araújo e de servidores da Secretaria Estadual de Educação.
Esquema com celulares de mortos
Um dos aspectos mais chocantes da investigação é o uso de linhas telefônicas ativadas em nome de pessoas já falecidas. A PF identificou que pelo menos 15 chips foram registrados com dados de óbitos ocorridos entre 2020 e 2024, utilizados para coordenar as fraudes sem deixar rastros. “Isso demonstra um nível de planejamento e desrespeito à lei que vai além do comum”, afirmou o delegado Carlos Mendes, responsável pelo caso, em coletiva de imprensa. As linhas eram usadas para negociar propinas e combinar lances em licitações, dificultando o rastreamento pela Controladoria-Geral do Estado.
O montante de R$ 16 milhões representa apenas uma parte dos contratos sob análise. A PF estima que o esquema pode ter movimentado até R$ 50 milhões nos últimos três anos, envolvendo outras empresas e agentes públicos. Entre os alvos estão servidores da Secretaria de Obras e da Procuradoria-Geral do Estado, que supostamente facilitavam a aprovação de pagamentos e a liberação de certidões negativas de débito para as empresas envolvidas.
Panorama político e reações
A operação ocorre em um momento de forte tensão política no Rio de Janeiro, onde Cláudio Castro enfrenta uma série de investigações sobre corrupção em seu governo. O governador, que é do mesmo partido de Renato Araújo, o PL, já foi alvo de outras operações da PF nos últimos meses, incluindo a que apura desvios na área de saúde. A proximidade entre o pré-candidato e o chefe do Executivo estadual levanta questionamentos sobre a influência política nas licitações públicas. Renato Araújo, em nota, negou qualquer irregularidade e afirmou que “todos os contratos foram firmados dentro da legalidade e com transparência”. Já o governo do estado, por meio da Secretaria de Comunicação, declarou que “colabora integralmente com as investigações e aguarda os resultados para tomar as medidas cabíveis”.
Especialistas em direito público ouvidos pela reportagem apontam que o caso pode ter repercussões eleitorais significativas. Renato Araújo é pré-candidato a deputado federal pelo PL e sua campanha já havia recebido doações de empresas do setor de construção civil. A operação ‘Sem Refino’ pode comprometer sua candidatura, além de manchar a imagem do partido no estado. Enquanto isso, a PF continua a análise dos materiais apreendidos, incluindo documentos, computadores e celulares, para aprofundar as investigações sobre o esquema que, segundo os investigadores, “utilizou até mesmo a memória dos mortos para cometer crimes contra o erário”.
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