O governo federal anunciou, nesta semana, um investimento recorde de R$ 1,2 bilhão para o estado de Alagoas por meio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Saúde. A iniciativa, que integra o novo ciclo do PAC, prevê a construção e ampliação de unidades de saúde em 102 municípios alagoanos, com destaque para a capital Maceió e regiões do interior como Arapiraca, Palmeira dos Índios e Rio Largo. O montante representa o maior aporte federal já destinado à saúde pública alagoana, superando em mais de 300% os valores aplicados nos últimos dez anos.
De acordo com o Ministério da Saúde, os recursos serão aplicados em três eixos principais: atenção primária, com a construção de 150 novas Unidades Básicas de Saúde (UBS); atenção especializada, com a implantação de 12 Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e a reforma de quatro hospitais regionais; e infraestrutura hospitalar, com a construção de dois novos hospitais de referência em Maceió e Arapiraca. O anúncio foi feito durante cerimônia no Palácio do Planalto, com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do ministro da Saúde, Nísia Trindade.
Panorama político e econômico
A chegada do PAC Saúde a Alagoas ocorre em um contexto de intenso debate sobre a capacidade de gestão dos recursos públicos no estado. Nos últimos meses, a Prefeitura de Maceió enfrentou críticas da oposição e de entidades civis após um ataque à orla marítima que expôs fragilidades na segurança e na infraestrutura turística da capital. Paralelamente, o governo estadual, sob comando do governador Paulo Dantas (MDB), busca reverter indicadores negativos na área da saúde, como a alta taxa de mortalidade infantil e a superlotação das emergências hospitalares. O investimento federal, portanto, é visto como uma tentativa de alavancar a imagem do governo petista em um estado historicamente marcado por desigualdades regionais e por ciclos de violência urbana, como os registrados recentemente no bairro Benedito Bentes, em Maceió.
O anúncio também reacendeu o debate sobre a transparência na aplicação dos recursos. Em 2023, a Controladoria-Geral da União (CGU) identificou irregularidades em contratos de obras públicas em Alagoas, incluindo suspeitas de superfaturamento em unidades de saúde. Para evitar novos desvios, o governo federal condicionou a liberação das verbas à criação de um comitê de monitoramento, com participação de representantes do Ministério Público Federal (MPF) e do Tribunal de Contas da União (TCU). A medida foi elogiada por especialistas, mas criticada por setores da oposição, que a consideram uma ingerência federal na autonomia estadual.
Impactos sociais e regionais
O PAC Saúde em Alagoas deve beneficiar diretamente cerca de 3,2 milhões de pessoas, o equivalente a 95% da população do estado. Entre as obras mais aguardadas está a construção do Hospital Regional do Sertão, em Delmiro Gouveia, que atenderá uma região com alta incidência de doenças crônicas e falta de leitos de UTI. Outra intervenção de destaque é a ampliação do Hospital Universitário Professor Alberto Antunes, em Maceió, referência no tratamento de câncer e doenças cardiovasculares. A previsão é de que as primeiras unidades comecem a funcionar em até 18 meses, gerando cerca de 8 mil empregos diretos e indiretos durante a fase de obras.
Apesar do otimismo, gestores municipais alertam para o desafio de manter as novas unidades após a conclusão das obras. Em entrevista à Agência Brasil, o secretário de Saúde de Palmeira dos Índios, Carlos Alberto Silva, destacou que muitos municípios não têm capacidade financeira para arcar com os custos operacionais, como folha de pagamento e compra de insumos. “O governo federal precisa garantir não apenas a construção, mas também um programa de custeio permanente, senão corremos o risco de ter hospitais prontos, mas fechados por falta de recursos”, afirmou. A declaração ecoa preocupações semelhantes às registradas durante a implementação do PAC 1, entre 2007 e 2010, quando diversas obras ficaram inacabadas ou subutilizadas.
O anúncio do PAC Saúde em Alagoas também ocorre em meio a uma escalada de violência no estado. Dados da Secretaria de Segurança Pública de Alagoas apontam que, apenas em 2024, foram registrados mais de 1.200 homicídios, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. A situação é particularmente grave na região metropolitana de Maceió, onde operações policiais recentes desvendaram esquemas de adulteração veicular e mandados de homicídio ligados ao tráfico de drogas. Para o sociólogo José Carlos dos Santos, da Universidade Federal de Alagoas (UFAL), o investimento em saúde precisa vir acompanhado de políticas de segurança pública e desenvolvimento social. “Não adianta construir hospitais se a população continua morrendo nas ruas. A violência é um problema de saúde pública, e o governo precisa tratar as causas, não apenas as consequências”, analisou.
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