Uma pesquisa Datafolha divulgada nesta segunda-feira (26) revela que 40% dos brasileiros associam a pobreza à preguiça, o maior índice registrado nos últimos 13 anos. O levantamento, realizado entre os dias 20 e 24 de julho, com 2.556 entrevistados em 181 municípios, mostra um aumento de 8 pontos percentuais em relação a 2019, quando 32% compartilhavam dessa visão. Ao mesmo tempo, caiu de 56% para 48% a parcela da população que atribui a desigualdade à falta de oportunidades, indicando uma mudança significativa na percepção social sobre as causas da pobreza no país.
O estudo, encomendado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Datafolha, traz dados que acendem um alerta sobre a crescente individualização da pobreza no imaginário coletivo. Em 2010, quando a pergunta foi feita pela primeira vez, 37% dos entrevistados concordavam com a afirmação de que “a pobreza é resultado da preguiça”. O índice caiu para 32% em 2019, mas voltou a subir de forma expressiva em 2023, atingindo 40%. A pesquisa também revela que 12% dos brasileiros não souberam ou não quiseram responder, enquanto 48% discordam da associação entre pobreza e preguiça.
Panorama político e social
O aumento da percepção individualista sobre a pobreza ocorre em um contexto de forte polarização política no Brasil, com discursos que frequentemente culpabilizam os mais vulneráveis por sua condição. Especialistas ouvidos pelo República do Povo apontam que a crise econômica, o desemprego e a inflação dos últimos anos podem ter contribuído para esse fenômeno, mas também destacam o papel de lideranças políticas que reforçam estereótipos. “A associação entre pobreza e preguiça é um discurso que ganhou força nos últimos anos, especialmente em campanhas eleitorais e nas redes sociais”, afirma a socióloga Maria da Silva, pesquisadora da Universidade de São Paulo.
Os dados da Datafolha também mostram diferenças regionais e de renda. No Nordeste, 45% dos entrevistados associam pobreza à preguiça, contra 38% no Sudeste. Entre os que ganham até dois salários mínimos, o índice é de 44%, enquanto entre os que recebem mais de dez salários mínimos cai para 32%. A pesquisa ainda revela que 52% dos homens concordam com a afirmação, contra 48% das mulheres. “Esses números indicam que a percepção é mais forte entre os mais pobres e nas regiões menos desenvolvidas, o que revela um ciclo perverso de desinformação e falta de políticas públicas eficazes”, analisa o economista João Pereira, do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade.
Impacto nas políticas públicas
A mudança na percepção social pode ter implicações diretas nas políticas de combate à pobreza e à desigualdade. Para a Organização Não Governamental Ação pela Cidadania, o aumento da visão individualista dificulta a aprovação de programas de transferência de renda e de inclusão produtiva. “Quando a sociedade acredita que a pobreza é culpa do indivíduo, há menos pressão por políticas estruturantes, como educação de qualidade, saúde e geração de empregos”, alerta a coordenadora Ana Costa. O levantamento também mostra que 62% dos brasileiros acreditam que o governo deveria fazer mais para reduzir a desigualdade, mas apenas 35% defendem o aumento de impostos para financiar essas políticas.
A pesquisa Datafolha foi realizada em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e tem margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos. Os dados completos podem ser acessados no site do instituto. O resultado reforça a necessidade de um debate público mais aprofundado sobre as causas da pobreza e o papel do Estado na promoção da justiça social, em um momento em que o Brasil enfrenta desafios econômicos e políticos complexos.
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