O preço do prato feito, refeição popular que compõe a base da alimentação dos brasileiros, subiu no país mesmo com o alívio recente na inflação geral, atingindo uma média nacional de R$ 31,90, segundo levantamento divulgado pela CNN Brasil. O estudo, que analisou dados de todas as regiões, revela que o custo varia significativamente de acordo com a localidade, com a região Sul liderando o ranking com o valor mais alto, de R$ 38,12, enquanto o Norte apresenta o menor preço médio, de R$ 26,84. Essa disparidade expõe não apenas as diferenças regionais de renda e custo de vida, mas também as pressões específicas sobre os insumos alimentares, como o arroz, o feijão e a carne, que compõem o prato típico.
O levantamento, realizado com base em preços coletados em estabelecimentos comerciais de todo o Brasil, mostra que, apesar de a inflação geral ter desacelerado nos últimos meses, o custo da alimentação fora de casa continua em trajetória de alta. O preço do prato feito subiu 5,2% em relação ao mesmo período do ano anterior, superando a inflação oficial do período, que ficou em torno de 4,5%. Esse aumento é impulsionado por fatores como o encarecimento de insumos básicos, o repasse de custos operacionais (aluguel, energia, mão de obra) e a demanda aquecida em algumas regiões, especialmente no Sul e no Sudeste.
Panorama regional e desigualdades
Os dados detalhados revelam um abismo regional: no Sul, o prato feito custa, em média, R$ 38,12, valor 42% superior ao do Norte (R$ 26,84). O Sudeste aparece em segundo lugar, com média de R$ 34,50, seguido pelo Centro-Oeste (R$ 32,10) e pelo Nordeste (R$ 29,75). A variação reflete diferenças na estrutura de custos locais, na concentração de renda e na disponibilidade de insumos regionais. No Sul, por exemplo, o preço mais alto está associado ao maior custo de vida em capitais como Porto Alegre e Curitiba, além da forte presença de restaurantes que utilizam ingredientes de maior valor agregado.
O levantamento também aponta que, em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, o preço do prato feito pode ultrapassar R$ 40,00 em bairros centrais, enquanto em áreas periféricas ou em cidades menores do interior o valor cai para cerca de R$ 25,00. Essa diferença intraurbana reforça o impacto da desigualdade social no acesso à alimentação de qualidade. O economista André Braz, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV/Ibre), destacou que o aumento do prato feito é um reflexo da inflação de serviços, que tem sido mais persistente do que a de bens industrializados. “A alimentação fora de casa está sujeita a custos trabalhistas e de aluguel, que não caem com a mesma velocidade que os preços de commodities”, explicou.
Impacto no orçamento familiar e contexto político
A alta do prato feito pressiona ainda mais o orçamento das famílias de baixa renda, que destinam uma parcela maior de sua renda à alimentação. Dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) mostram que, nos últimos 12 meses, o gasto com alimentação fora de casa cresceu 8,3% entre os 10% mais pobres da população, contra 4,1% entre os 10% mais ricos. Esse cenário ocorre em um contexto de desaceleração da inflação geral, que caiu de 5,8% para 4,5% no mesmo período, mas com a inflação de alimentos ainda rodando acima da média, em 6,2%.
O governo federal, por meio do Ministério da Agricultura, atribuiu parte da alta a fatores sazonais, como a entressafra de grãos e o aumento das exportações de carne, que reduzem a oferta interna. No entanto, especialistas apontam que a falta de políticas estruturais para baratear a cesta básica, como investimentos em logística e redução de impostos, agrava o problema. O economista Monica de Bolle, do Peterson Institute for International Economics, afirmou que “a alta do prato feito é um termômetro da inflação de serviços, que exige ações coordenadas de política monetária e fiscal para ser controlada”. Enquanto isso, o Banco Central mantém a taxa básica de juros (Selic) em 10,5% ao ano, o que encarece o crédito e desestimula o consumo, mas não resolve a pressão sobre os preços dos alimentos.
Para os consumidores, a saída tem sido buscar alternativas, como cozinhar em casa ou optar por refeições mais simples. Pesquisa da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) indica que 62% dos estabelecimentos do setor registraram queda no movimento nos últimos três meses, reflexo da redução do poder de compra. A tendência é que o preço do prato feito continue subindo nos próximos meses, puxado pelo reajuste do salário mínimo e pelos custos de energia, o que deve manter a alimentação popular no centro do debate econômico e político do país.
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