Um relatório do Ministério Público do Rio de Janeiro enviado ao Supremo Tribunal Federal revela que 17% dos policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) retiraram as câmeras corporais durante a megaoperação realizada nos complexos do Alemão e da Penha, que resultou em 122 mortos. O levantamento, que analisou imagens dos agentes, aponta falhas no uso obrigatório dos equipamentos e levanta questionamentos sobre a transparência das ações e a conduta das forças de segurança.
De acordo com o documento, dos 240 policiais do Bope que atuaram na operação, 41 retiraram as câmeras em algum momento, o que representa 17% do efetivo. A análise foi feita a partir das gravações disponíveis e de registros de ativação dos dispositivos. O MP destacou que a retirada ocorreu em momentos críticos, como durante confrontos e abordagens, o que compromete a fiscalização e a apuração de possíveis excessos.
Contexto da operação e impacto social
A megaoperação, ocorrida em junho de 2026, foi uma das maiores da história do estado, com 122 mortos confirmados, sendo a maioria moradores das comunidades. A ação foi alvo de críticas de organizações de direitos humanos e de familiares das vítimas, que denunciam execuções sumárias e uso desproporcional da força. O relatório do MP reforça essas preocupações ao apontar que a ausência de imagens em 17% dos casos dificulta a verificação da legalidade das ações policiais.
O levantamento foi encaminhado ao STF como parte de um inquérito que investiga a atuação das forças de segurança no Rio de Janeiro. A Corte já havia determinado o uso obrigatório de câmeras corporais em operações policiais, especialmente em comunidades, como medida para garantir transparência e reduzir a letalidade. A constatação de que agentes do Bope descumpriram a determinação judicial pode agravar a situação jurídica dos envolvidos e gerar novas sanções.
Reações e desdobramentos políticos
A divulgação do relatório gerou reações imediatas no cenário político. Parlamentares da oposição cobraram a responsabilização dos comandantes da operação e do governo estadual, enquanto aliados do Executivo fluminense minimizaram os dados, argumentando que a maioria dos policiais manteve as câmeras ligadas. O Governo do Estado do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria de Segurança Pública, afirmou que vai investigar os casos de retirada e que reforçará o treinamento dos agentes.
O caso também reacendeu o debate sobre a eficácia das câmeras corporais como ferramenta de controle. Especialistas apontam que, embora os dispositivos sejam importantes, sua eficácia depende de fiscalização rigorosa e de punições para quem descumpre as regras. O MP recomendou que o STF determine a adoção de medidas para garantir o uso contínuo dos equipamentos, como a instalação de sensores que impeçam a desativação durante operações.
O relatório do Ministério Público, com 122 páginas, também detalha que a retirada das câmeras ocorreu em áreas de maior conflito, o que sugere que os policiais podem ter agido de forma deliberada para evitar o registro de ações questionáveis. A investigação segue em andamento, e o STF deve se pronunciar nos próximos dias sobre as providências a serem tomadas.
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