Relatório dos EUA contra o Brasil aponta avanço da soja e recorde de desmatamento como justificativas para novas tarifas

O relatório do USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) que recomendou novas tarifas contra o Brasil, divulgado nesta quinta-feira (2), cita o avanço da soja sobre áreas de vegetação nativa e o pico de desmatamento registrado em 2021, durante o governo Jair Bolsonaro, como fatores determinantes para a medida. O documento, que propõe um tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, também destaca a saída de grandes empresas exportadoras da Moratória da Soja, um pacto privado que visava conter o desflorestamento na Amazônia.

O relatório do USTR aponta que, entre 2019 e 2022, o desmatamento na Amazônia Legal atingiu níveis críticos, com o pico em 2021, quando foram destruídos mais de 13 mil km² de floresta. Esse cenário, segundo o documento, foi agravado pela flexibilização de políticas ambientais e pelo enfraquecimento dos órgãos de fiscalização, como o Ibama e o ICMBio. A saída de empresas como Cargill, Bunge e Amaggi da Moratória da Soja, que ocorreu entre 2023 e 2024, é citada como um sinal de que o setor agrícola brasileiro estaria se distanciando de compromissos voluntários de sustentabilidade.

Panorama político e econômico

O tarifaço proposto pelos Estados Unidos ocorre em um momento de tensão comercial global, com a administração do presidente Donald Trump adotando uma postura mais protecionista. A medida atinge diretamente setores estratégicos da economia brasileira, como o agronegócio, que responde por cerca de 25% do PIB nacional. Especialistas apontam que a decisão pode gerar impactos significativos nas exportações brasileiras, especialmente de soja, carne bovina e minério de ferro, que somam bilhões de dólares anuais.

O governo brasileiro, por meio do Ministério das Relações Exteriores, já manifestou preocupação com a medida e prometeu retaliar caso as tarifas sejam implementadas. O Ministério da Agricultura também criticou o relatório, argumentando que o Brasil tem avançado em políticas de combate ao desmatamento, como o Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). No entanto, dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) mostram que, apesar de uma redução em 2023 e 2024, os níveis de desmatamento ainda são elevados em comparação com a década anterior.

O relatório do USTR também menciona a Lei de Proteção da Vegetação Nativa (Código Florestal) e a Política Nacional de Mudança do Clima, mas argumenta que a implementação dessas normas tem sido insuficiente para conter o avanço da fronteira agrícola. A soja, que responde por cerca de 40% das exportações agrícolas brasileiras, é apontada como o principal vetor de desmatamento, especialmente nos estados do Mato Grosso, Pará e Rondônia.

Para analistas, a decisão dos EUA reflete uma mudança na política comercial americana, que passa a vincular questões ambientais a acordos bilaterais. O Brasil, que busca ampliar sua participação no mercado global de commodities, agora enfrenta o desafio de equilibrar o crescimento econômico com a preservação ambiental, sob o olhar atento de parceiros comerciais como os Estados Unidos e a União Europeia.

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