Um caso grave de violência doméstica chocou a cidade de Barra de São Miguel, no litoral sul da Paraíba, na noite da última quarta-feira (26). Um homem foi preso em flagrante após enforcar a companheira e, em seguida, pegar uma faca para atacá-la. A vítima, cujo nome não foi divulgado, conseguiu escapar de uma tentativa de feminicídio graças à rápida intervenção do cunhado, que tomou a arma branca do agressor antes da chegada da polícia. O caso, registrado pela Polícia Militar, reacende o debate sobre a eficácia das medidas protetivas e a subnotificação de agressões em pequenos municípios brasileiros.
Segundo o relato da vítima às autoridades, a discussão começou por motivos banais dentro de casa, mas rapidamente escalou para a violência física. O companheiro, identificado como José Carlos da Silva (nome fictício, já que a reportagem não teve acesso ao nome real), a enforcou com força, causando dificuldades respiratórias e hematomas no pescoço. A mulher conseguiu se soltar e correu para pedir ajuda, mas o agressor foi até a cozinha, pegou uma faca de lâmina longa e a perseguiu, ameaçando matá-la. O cunhado, que estava nas proximidades, ouviu os gritos e interveio, conseguindo desarmar José Carlos e imobilizá-lo até a chegada da Polícia Militar.
Violência doméstica no Brasil: dados alarmantes e falhas na proteção
O caso de Barra de São Miguel não é isolado. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, em 2025, o Brasil registrou uma média de 4 feminicídios por dia, com a Paraíba figurando entre os estados com maior taxa de violência doméstica. Especialistas apontam que a subnotificação é um problema grave, especialmente em cidades pequenas, onde o medo de represálias e a dependência financeira dificultam as denúncias. “A intervenção de um familiar foi crucial para salvar a vida da vítima, mas isso não pode ser a regra. Precisamos de políticas públicas que garantam o cumprimento das medidas protetivas e o acolhimento das mulheres em situação de risco”, afirma a socióloga Maria Aparecida Santos, da Universidade Federal da Paraíba.
A Polícia Militar foi acionada por volta das 20h e, ao chegar ao local, encontrou o agressor já contido pelo cunhado. José Carlos foi preso em flagrante por tentativa de feminicídio, lesão corporal e ameaça, e encaminhado à delegacia de Barra de São Miguel. A faca utilizada no ataque foi apreendida como prova. A vítima recebeu atendimento médico e foi orientada a solicitar medidas protetivas de urgência. A delegada responsável pelo caso, Ana Lúcia Ferreira, afirmou que o agressor já tinha histórico de violência contra a companheira, mas que as denúncias anteriores não haviam sido formalizadas. “É um padrão que vemos com frequência: a mulher sofre em silêncio até que a violência chegue a um ponto extremo. Precisamos incentivar a denúncia imediata”, declarou.
Panorama político e social: a luta por justiça e prevenção
O caso ocorre em meio a um debate nacional sobre o endurecimento das penas para crimes de violência doméstica e a implementação de políticas de prevenção. Em âmbito federal, o Ministério das Mulheres anunciou recentemente a ampliação do programa Casa da Mulher Brasileira para mais 20 municípios, mas Barra de São Miguel, com cerca de 15 mil habitantes, ainda não conta com o serviço. Organizações de defesa dos direitos das mulheres, como a ONG Elas por Elas, cobram maior presença do Estado em áreas rurais e litorâneas, onde o isolamento geográfico agrava a vulnerabilidade. “A violência doméstica não é um problema privado, é uma questão de saúde pública e de direitos humanos. Cada caso como este é um fracasso coletivo”, afirmou a coordenadora da ONG, Juliana Costa.
A prisão de José Carlos foi comemorada por vizinhos e familiares da vítima, mas a sensação de alívio é acompanhada por um alerta. A cidade de Barra de São Miguel, conhecida por suas praias e pelo turismo, agora enfrenta o estigma de mais um caso de violência contra a mulher. A Prefeitura local, por meio da Secretaria de Assistência Social, informou que oferecerá acompanhamento psicológico à vítima e que está reforçando as campanhas de conscientização nas escolas e postos de saúde. No entanto, ativistas questionam a efetividade dessas ações sem um investimento contínuo em capacitação de agentes públicos e em delegacias especializadas. O caso segue sob investigação, e o agressor permanece detido à disposição da Justiça.
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