O aforismo atribuído a Ulysses Guimarães (1916-1992) — “Itamaraty só dá voto no Burundi” — sempre resumiu o consenso de que política externa não influencia eleições no Brasil desde a redemocratização. No entanto, as crises simultâneas envolvendo Donald Trump, a Faixa de Gaza e a Venezuela estão colocando Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Dino em uma disputa de trunfo eleitoral, desafiando essa máxima histórica.
O cenário internacional, antes relegado a segundo plano nas campanhas brasileiras, ganhou centralidade com a polarização em torno de temas como a guerra no Oriente Médio e a crise humanitária na Venezuela. Enquanto Lula busca alinhar o Brasil a posições multilaterais e de defesa dos direitos humanos, Flávio Dino adota um discurso mais alinhado à direita conservadora, ecoando pautas de Trump e criticando abertamente o governo venezuelano de Nicolás Maduro.
Gaza e a divisão no espectro político
A guerra em Gaza, que já dura mais de um ano, expôs fraturas profundas na sociedade brasileira. Lula defendeu o cessar-fogo imediato e a criação de um Estado palestino, enquanto Flávio Dino e aliados criticam a postura do governo, acusando-o de leniência com o Hamas. A disputa se intensificou após declarações do presidente brasileiro comparando a ação israelense ao Holocausto, gerando reações diplomáticas e internas.
Para analistas, o tema tem potencial de mobilizar eleitores religiosos e conservadores, especialmente evangélicos, que veem em Israel um aliado estratégico. Dados de pesquisas recentes indicam que 62% dos brasileiros consideram a posição do governo em Gaza como fator relevante na escolha do voto.
Venezuela e o reflexo regional
A crise venezuelana também ganhou destaque na campanha. Lula mantém uma postura de não intervenção e diálogo, enquanto Flávio Dino defende sanções mais duras e o reconhecimento da oposição como legítima. A situação se agravou com o aumento do fluxo de refugiados venezuelanos para o Brasil, especialmente em Roraima, onde a pressão sobre serviços públicos é crescente.
O governo brasileiro anunciou recentemente a liberação de R$ 150 milhões para ações humanitárias na fronteira, mas críticos apontam que a medida é insuficiente. Flávio Dino, por sua vez, propôs a criação de um fundo emergencial de R$ 500 milhões, financiado por cortes em emendas parlamentares.
Trump e o alinhamento ideológico
A figura de Donald Trump também atravessa o debate. Flávio Dino busca se associar ao ex-presidente americano, que lidera as pesquisas para 2028, enquanto Lula critica o que chama de “populismo autoritário”. A polarização se reflete em temas como comércio internacional, mudanças climáticas e direitos humanos.
Especialistas apontam que a política externa nunca esteve tão presente no debate eleitoral brasileiro. “O mundo mudou, e o Brasil não está imune. As crises globais agora têm impacto direto no bolso e na segurança do eleitor”, afirma o cientista político Carlos Melo, do Insper. “Lula e Flávio estão usando esses temas como trunfos para mobilizar suas bases.”
A disputa promete se intensificar nos próximos meses, com a aproximação das eleições de 2026. Enquanto isso, o Itamaraty tenta equilibrar a agenda diplomática com as pressões internas, em um jogo que pode redefinir o peso da política externa nas urnas brasileiras.
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