China defende soberania nacional após EUA classificarem PCC e CV como organizações terroristas

A China defendeu o princípio da não interferência em assuntos internos de outros países após os Estados Unidos classificarem as facções brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas. A declaração foi feita nesta sexta-feira (29) por Mao Ning, porta-voz do Ministério das Relações Exteriores chinês, em resposta a questionamentos sobre a medida anunciada pelo governo americano. A informação foi divulgada pelo Global Times, diário sob supervisão do People’s Daily, jornal oficial do Partido Comunista Chinês.

A China confirmou ainda que Mauro Vieira, chanceler brasileiro, fará uma visita oficial ao país de 31 de maio a 2 de junho, a convite do Ministro das Relações Exteriores Wang Yi. O movimento sinaliza a tentativa de Brasília de equilibrar relações diplomáticas em meio à crescente pressão dos EUA sobre o narcotráfico na América Latina.

Contexto da classificação

As duas facções foram designadas como “Terroristas Globais Especialmente Designados” e, a partir de 5 de junho, também serão classificadas como “Organizações Terroristas Estrangeiras”. O anúncio foi feito na mesma semana em que o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reuniu com o presidente Donald Trump e com o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.

A possibilidade já era ventilada desde 2025, quando o governo Trump iniciou uma ofensiva contra cartéis de drogas latino-americanos. O combate ao tráfico tem sido tratado como tema de segurança nacional pela Casa Branca, que chegou a reunir líderes da América Latina para discutir o assunto e atacou alvos do narcotráfico na região.

Estratégia militar dos EUA

Ainda em janeiro, antes do anúncio da classificação, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos publicou a nova “Estratégia Nacional de Defesa dos EUA”, com o objetivo de assegurar plena dominância militar e comercial “do Ártico à América do Sul”. No documento, os Estados Unidos afirmam que estão dispostos a colaborar com países do continente americano, mas alertam que podem optar por ações militares onde e quando julgarem que os interesses norte-americanos não estão sendo atendidos.

Quando a estratégia foi anunciada, o Departamento de Guerra usou como exemplo a operação militar que capturou o ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro — acusado de comandar o Cartel de los Soles, considerado terrorista pelos EUA. Segundo o documento, os Estados Unidos buscarão “paz por meio da força”, lema que vem sendo usado pelo governo Trump desde o início do segundo mandato do republicano. O combate ao chamado “narcoterrorismo” tem papel central nessa estratégia.

Os EUA afirmaram que se reservam o direito de realizar ataques militares diretos contra organizações narcoterroristas em qualquer lugar das Américas. O Departamento de Guerra disse ainda que quer ajudar países da região a fortalecer suas capacidades de combate ao crime organizado.

Panorama político

A classificação das facções brasileiras como terroristas insere-se em um contexto de endurecimento da política externa americana sob Trump, que prioriza a segurança nacional e a luta contra o narcotráfico como eixos centrais. A medida também reflete a crescente influência de setores conservadores no Brasil, como a visita de Flávio Bolsonaro a Washington, e a tentativa de alinhamento com a agenda trumpista.

Por outro lado, a China busca manter sua posição de não interferência e fortalecer laços com o Brasil, principal parceiro comercial na América Latina. A visita do chanceler brasileiro a Pequim ocorre em meio a tensões comerciais e geopolíticas entre EUA e China, que disputam influência na região.

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