Operação da Polícia Civil mira ONG ligada a produtora de filme sobre Bolsonaro por suspeita de desvio em contrato de R$ 157 milhões com a Prefeitura de São Paulo

A Polícia Civil de São Paulo deflagrou uma operação nesta quinta-feira (26) contra uma ONG ligada à produtora do filme sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro, investigada por suspeita de desvio de recursos públicos em um contrato de R$ 157 milhões firmado com a Prefeitura de São Paulo para a implantação de rede de wi-fi gratuito em áreas públicas da capital paulista. A entidade é presidida pela empresária Maria do Carmo Silva, que também é sócia da produtora responsável pela cinebiografia do ex-presidente. A operação, batizada de “Conexão Suspeita”, cumpre mandados de busca e apreensão em endereços ligados à ONG e à produtora, em meio a um cenário político já conturbado por investigações paralelas no Supremo Tribunal Federal (STF) e na Câmara dos Deputados sobre o financiamento do filme.

De acordo com a investigação, o contrato milionário, assinado em 2023, previa a instalação de pontos de internet gratuita em praças, parques e terminais de ônibus da cidade, mas indícios apontam que parte dos recursos pode ter sido desviada para custear a produção do longa-metragem sobre Bolsonaro. A Polícia Civil suspeita que a ONG tenha utilizado notas fiscais frias e superfaturado serviços de tecnologia para justificar os repasses, que somam R$ 157 milhões em três anos de contrato. A Prefeitura de São Paulo, em nota, afirmou que abriu uma sindicância interna para apurar os fatos e que está colaborando com as autoridades, mas ressaltou que o contrato foi firmado com base em pareceres técnicos e jurídicos da época.

Investigação se soma a escândalos anteriores

A operação desta quinta-feira amplia a crise política em torno da produtora, que já é alvo de outras investigações. No STF, corre um inquérito sobre suposto desvio de emendas parlamentares para financiar a cinebiografia, com suspeitas de que deputados federais tenham direcionado recursos do orçamento secreto para a produtora em troca de vantagens eleitorais. A Câmara dos Deputados também revelou, em documento obtido pela República do Povo, que um parlamentar ligado ao caso realizou viagens internacionais sem autorização da Mesa Diretora, o que pode configurar quebra de decoro e obstrução da justiça. Além disso, a produtora buscou captar R$ 8,59 milhões via Lei Rouanet para o filme, em meio a questionamentos sobre a legalidade do uso de incentivos fiscais para obras de cunho político-partidário.

O caso também reacende o debate sobre a transparência em contratos públicos e o uso de ONGs como intermediárias para desvios de verbas. Especialistas ouvidos pela reportagem apontam que a falta de fiscalização em contratos de tecnologia e a pulverização de recursos via emendas parlamentares criam brechas para fraudes. A Polícia Civil informou que as investigações devem se estender por mais 90 dias, com análise de documentos apreendidos e oitivas de envolvidos. A ONG e a produtora, por meio de suas assessorias, negam qualquer irregularidade e afirmam que os contratos foram cumpridos dentro da lei. O caso, no entanto, já mobiliza a Comissão de Fiscalização Financeira e Controle da Câmara dos Deputados, que pode convocar a empresária Maria do Carmo Silva para depor.

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