Alesp: Deputada acusa líder do governo Tarcísio de violência política de gênero em audiência sobre privatização da Sabesp

Em mais um capítulo das tensões que marcam o debate sobre a privatização da Sabesp na Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp), a deputada estadual Ana Carolina Serra (Cidadania) acusou o deputado Gilmaci Santos (Republicanos), líder do governo Tarcísio de Freitas (Republicanos), de violência política de gênero. O episódio ocorreu durante uma audiência pública da Comissão de Finanças, Orçamento e Planejamento, na última terça-feira (25), quando um bate-boca entre os parlamentares escalou para acusações formais. A deputada afirma ter sido desrespeitada e silenciada de forma reiterada por Gilmaci, que nega as acusações e diz ter agido estritamente dentro do regimento interno da Casa.

Segundo relato de Ana Carolina Serra, a situação começou quando ela tentava questionar representantes do governo sobre os impactos da privatização da Sabesp no interior do estado. A deputada alega que Gilmaci Santos, na condição de líder do governo, a interrompeu diversas vezes, impedindo que ela concluísse sua fala. “Ele usou do cargo para me calar, para me diminuir. Isso é violência política de gênero, sim. Não é a primeira vez que isso acontece nesta Casa, mas não vou me calar”, declarou a parlamentar à imprensa após a reunião. O episódio ocorre em meio a um cenário de forte polarização na Alesp, onde a base governista tenta acelerar a aprovação do projeto de privatização da Sabesp, enquanto a oposição, incluindo partidos como PT, PSOL e Cidadania, busca obstruir a tramitação e ampliar o debate público.

Reações e versões opostas

Em resposta, Gilmaci Santos negou veementemente as acusações. “Não houve desrespeito, muito menos violência de gênero. Eu apenas cumpri o regimento, que dá ao líder do governo a prerrogativa de organizar os trabalhos e garantir que todos os deputados tenham voz, mas dentro de um limite de tempo. A deputada teve seu tempo, mas quis extrapolar”, afirmou o líder governista. Ele também classificou a acusação como “infundada” e “politicamente motivada”, sugerindo que a deputada estaria tentando desviar o foco do mérito da privatização. O presidente da comissão, deputado Mauro Bragato (PSDB), informou que não houve registro formal de quebra de decoro na reunião, mas que o caso será analisado pela Corregedoria da Alesp se houver representação formal.

A acusação de Ana Carolina Serra reacende o debate sobre violência política de gênero no legislativo paulista. Dados do Observatório da Violência Política contra a Mulher indicam que, em 2024, o número de denúncias desse tipo cresceu 30% no Brasil, com destaque para casos em assembleias estaduais. Em São Paulo, a Alesp já foi palco de episódios semelhantes, como o ocorrido em 2023, quando a deputada Mônica Seixas (PSOL) acusou o deputado Tenente Coimbra (PL) de assédio moral durante uma sessão. O caso atual, no entanto, ganha contornos específicos por envolver diretamente a liderança do governo e o tema sensível da privatização da Sabesp, que mobiliza interesses econômicos e sociais significativos.

Panorama político e desdobramentos

O episódio ocorre em um momento de alta tensão na Alesp, onde o governo Tarcísio de Freitas enfrenta resistência não apenas da oposição, mas também de setores da base aliada, insatisfeitos com a velocidade da tramitação do projeto da Sabesp. A privatização da companhia de saneamento, uma das maiores do país, é vista pelo governo como essencial para atrair investimentos e melhorar a eficiência, mas críticos apontam riscos de aumento de tarifas e precarização do serviço. A deputada Ana Carolina Serra, que integra a bancada do Cidadania, partido que oficialmente se opõe à privatização, já havia se manifestado contra o projeto em outras ocasiões. A acusação de violência política de gênero pode, agora, complicar ainda mais a articulação do governo na Casa, uma vez que coloca em xeque a conduta de seu principal articulador.

Enquanto isso, entidades de defesa dos direitos das mulheres, como a União Brasileira de Mulheres (UBM) e o coletivo Elas no Poder, manifestaram apoio à deputada e cobraram uma investigação rigorosa. “Não podemos normalizar que mulheres parlamentares sejam silenciadas ou desrespeitadas no exercício do mandato. A Alesp precisa dar uma resposta exemplar”, afirmou a presidente da UBM, Maria do Rosário. Do lado governista, a base aliada tenta minimizar o impacto do episódio, classificando-o como um “desentendimento pontual” em meio ao calor do debate político. O líder do governo na Alesp, Gilmaci Santos, afirmou que não pretende se retratar e que aguarda a análise do caso pela Corregedoria. A expectativa é que o episódio seja discutido na próxima reunião de líderes, marcada para a próxima semana, e que possa influenciar o clima das votações seguintes sobre a Sabesp.

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