A produtora brasileira de açúcar e etanol Raízen chegou a um acordo extrajudicial de reestruturação com a maioria de seus credores para renegociar sua dívida de R$ 65 bilhões, informou a Bloomberg News na sexta-feira (5), citando fontes próximas às negociações. O movimento, considerado o maior do setor sucroenergético no país, envolve bancos, fundos de investimento e fornecedores, e ocorre em meio a um cenário de pressão sobre os preços das commodities e custos operacionais elevados.
O acordo extrajudicial, que não tramita na Justiça, permite à Raízen alongar prazos, reduzir juros e obter novos aportes de capital, sem a necessidade de um processo de recuperação judicial. A empresa, que é uma joint venture entre a Cosan e a Shell, enfrentava dificuldades financeiras desde o agravamento da crise climática que afetou a safra de cana-de-açúcar e a disparada dos custos logísticos. A dívida de R$ 65 bilhões representa cerca de 40% do faturamento anual da companhia, segundo analistas.
Impactos no mercado e na economia
A reestruturação da Raízen tem repercussões diretas sobre o setor de bioenergia, que responde por cerca de 2% do PIB brasileiro e emprega mais de 700 mil pessoas. A empresa é a maior produtora de etanol do mundo e uma das líderes na exportação de açúcar, com presença em mais de 20 países. O acordo pode evitar uma crise de desabastecimento no mercado interno de etanol e açúcar, além de preservar investimentos em usinas e logística.
No plano político, o caso acendeu alertas no governo federal, que vê na Raízen um ativo estratégico para a transição energética e a descarbonização da matriz de transportes. O Ministério da Fazenda e o Banco Central monitoram de perto as negociações, temendo efeitos sistêmicos sobre o sistema financeiro, já que a dívida está pulverizada entre dezenas de instituições. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) também acompanha o caso, em razão do impacto sobre acionistas minoritários e detentores de títulos de dívida.
Panorama político e econômico
A renegociação ocorre em um momento de instabilidade nos mercados globais, com a guerra comercial entre Estados Unidos e China pressionando as cotações do açúcar e do petróleo, insumos que afetam diretamente a rentabilidade da Raízen. No Brasil, a alta dos juros e a inflação elevada reduziram o consumo de combustíveis, enquanto a seca histórica no Centro-Sul comprometeu a produtividade dos canaviais.
Para especialistas, o acordo extrajudicial da Raízen pode servir de modelo para outras empresas do setor que enfrentam endividamento semelhante. A Associação Brasileira da Indústria de Açúcar e Etanol (UNICA) estima que pelo menos 15 usinas estejam em situação crítica, com dívidas totais superiores a R$ 120 bilhões. O desfecho do caso Raízen será observado de perto por investidores, credores e formuladores de políticas públicas, como um termômetro da saúde financeira do agronegócio brasileiro.
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