Morre Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, aos 100 anos; legado divide economistas entre boom e crise de 2008

O economista americano Alan Greenspan, que presidiu o Federal Reserve (Fed) por duas décadas e se tornou uma das figuras mais influentes e controversas da história econômica global, morreu nesta segunda-feira (22) aos 100 anos. Sua trajetória, que vai de grande responsável por um longo período de prosperidade econômica a principal culpado pela devastadora crise financeira de 2008, reflete as profundas divisões sobre seu legado e o papel da política monetária nos Estados Unidos e no mundo.

Greenspan comandou o banco central americano de 1987 a 2006, período que abrangeu desde a recuperação após o crash de 1987 até a bolha da internet e a expansão imobiliária que precedeu a crise de 2008. Durante sua gestão, a economia dos EUA experimentou um dos maiores ciclos de crescimento contínuo da história, com inflação controlada e baixo desemprego, o que lhe rendeu o apelido de “mestre” da política monetária. No entanto, sua defesa de uma regulação financeira mínima e sua resistência a controlar os excessos do mercado de hipotecas subprime são apontados por críticos como fatores decisivos para o colapso de 2008, que levou a uma recessão global e milhões de desempregados.

O legado de prosperidade e a sombra da crise

Durante os anos 1990 e início dos 2000, Greenspan foi amplamente celebrado por sua capacidade de equilibrar crescimento econômico com estabilidade de preços. Ele presidiu o Fed durante a expansão da era da informação, a queda do comunismo e a globalização acelerada. No entanto, a crise financeira de 2008, desencadeada pelo colapso do mercado imobiliário americano, expôs as fragilidades de seu modelo de supervisão. Em depoimentos ao Congresso dos EUA após a crise, Greenspan admitiu que havia um “defeito” em sua visão de que os mercados se autorregulariam, uma declaração que ecoou como um mea-culpa histórico.

A morte de Greenspan ocorre em um momento de intensos debates sobre o papel dos bancos centrais, a regulação financeira e os riscos de novas bolhas especulativas. Economistas e historiadores continuam a dividir-se: para alguns, ele foi um visionário que modernizou a política monetária; para outros, o arquiteto de uma desregulamentação que custou caro à economia global. A notícia foi recebida com reações mistas em Wall Street e em círculos acadêmicos, com homenagens de ex-colegas e críticas de analistas que o responsabilizam pela crise.

Panorama político e econômico

A trajetória de Greenspan também reflete as transformações políticas dos EUA nas últimas décadas. Nomeado pelo presidente republicano Ronald Reagan em 1987, ele serviu sob quatro presidentes — Reagan, George H.W. Bush, Bill Clinton e George W. Bush —, mantendo uma influência que transcendeu partidos. Sua abordagem de livre mercado e sua resistência a intervenções governamentais na economia alinharam-se com o pensamento dominante do Partido Republicano, mas também encontraram eco em setores democratas durante os anos Clinton. A crise de 2008, no entanto, minou essa hegemonia ideológica e abriu espaço para um maior intervencionismo estatal, como visto nas políticas de resgate bancário e na criação de novas regulações, como a Lei Dodd-Frank.

O legado de Greenspan, portanto, não é apenas econômico, mas profundamente político. Sua morte reacende o debate sobre os limites da desregulamentação e a responsabilidade dos bancos centrais na prevenção de crises sistêmicas. Enquanto o Fed atual, sob a presidência de Jerome Powell, enfrenta desafios como inflação pós-pandemia e instabilidade financeira, a figura de Greenspan serve como um lembrete tanto dos êxitos quanto dos fracassos de uma era de confiança quase cega nos mercados.

A informação foi originalmente publicada pela Folha de S.Paulo, que noticiou a morte de Greenspan nesta segunda-feira (22), aos 100 anos. O economista deixa um legado complexo, que continuará a ser estudado e debatido por gerações de economistas, políticos e cidadãos ao redor do mundo.

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