A Ferrari negou nessa quinta-feira (25) que esteja praticando venda casada ao condicionar a compra do modelo elétrico Luce como requisito para que clientes tenham acesso a futuros lançamentos de série limitada da montadora. A declaração foi feita em resposta a reportagens que apontavam a prática como estratégia para impulsionar as vendas do primeiro carro totalmente elétrico da marca italiana, que chega ao mercado em meio a um cenário de cautela no setor de luxo e crescentes exigências ambientais.
A polêmica ganhou repercussão após vazamentos de supostas comunicações internas da empresa sugerindo que concessionárias estariam orientando clientes a adquirir o Luce — cujo preço inicial ultrapassa os 500 mil euros — para garantir prioridade na lista de espera de edições especiais, como a sucessora do LaFerrari. A Ferrari, no entanto, classificou as informações como “infundadas” e reiterou que “a alocação de veículos de série limitada segue critérios de fidelidade e histórico de compras, sem qualquer vínculo obrigatório com modelos específicos”.
Impacto no mercado de luxo e reações do setor
A controvérsia ocorre em um momento delicado para a indústria automotiva de alto padrão. Enquanto a Ferrari tenta consolidar sua transição para a eletrificação — com investimentos de 4,4 bilhões de euros até 2030 —, concorrentes como Lamborghini e Porsche também enfrentam desafios para equilibrar a exclusividade de suas marcas com as metas de descarbonização. O Luce, apresentado em maio de 2026, representa um marco para a empresa, mas sua aceitação entre os colecionadores ainda é incerta, especialmente em mercados como o Brasil, onde a tributação de veículos elétricos de luxo pode elevar o preço final para mais de R$ 3 milhões.
Especialistas do setor consultados pelo Republica do Povo apontam que, mesmo sem a confirmação da venda casada, a prática não seria surpreendente em um segmento onde a escassez artificial é usada para manter o valor de revenda. “A Ferrari sempre controlou rigorosamente sua oferta. Se a acusação for verdadeira, seria apenas mais uma ferramenta para gerenciar a demanda e forçar a aceitação de um produto que ainda divide opiniões”, avalia o analista automotivo Carlos Menezes, da consultoria AutoLux.
Panorama político e regulatório
A polêmica também ecoa no campo regulatório. Na União Europeia, a proibição de vendas de veículos a combustão a partir de 2035 pressiona montadoras de luxo a acelerar a eletrificação, mas sem perder o apelo de exclusividade. No Brasil, o governo federal estuda novas alíquotas de importação para elétricos de alto valor, o que pode impactar diretamente a estratégia da Ferrari no país. Enquanto isso, entidades de defesa do consumidor, como o Procon-SP, monitoram o caso, mas ainda não abriram investigação formal por falta de denúncias concretas.
A Ferrari encerrou o primeiro semestre de 2026 com lucro líquido de 1,2 bilhão de euros, alta de 8% em relação ao mesmo período do ano anterior, impulsionada principalmente pelas vendas de modelos híbridos. O Luce representa a aposta da marca para o futuro, mas a controvérsia sobre a venda casada pode manchar sua reputação entre os entusiastas mais tradicionais. Até o fechamento desta edição, a ação da empresa na bolsa de Milão registrava leve queda de 0,7%, refletindo a cautela dos investidores.
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