A menos de um mês do início das convenções partidárias — momento em que os partidos precisam bater o martelo sobre quem será lançado nas eleições —, as equipes de pré-campanha dos presidenciáveis articulam nomes para os vice-candidatos na chapa, com dois atributos principais em jogo: reduzir resistências em parte do eleitorado e ampliar o tempo de rádio e TV por meio de coligações partidárias. A estratégia reflete a busca por sinalizações políticas que possam furar a bolha do eleitorado de cada candidato, conforme interlocutores das pré-campanhas.
Em 2022, o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT) fez um gesto ao Centro ao convidar Geraldo Alckmin (PSB), seu então adversário histórico, para ser seu vice. Agora, o senador Flávio Bolsonaro (PL) tenta ganhar força entre o eleitorado feminino e busca uma mulher para compor sua chapa eleitoral. “O bom vice agrega. Ele pode não necessariamente agregar voto porque o cabeça de chapa é o cabeça de chapa, dificilmente o vice agrega tanta votação assim. Mas o vice é uma sinalização que o partido faz para uma parcela do eleitorado, para a opinião pública e para outros partidos”, explica o cientista político Carlos Ranulfo, da Universidade Federal de Minas Gerais.
Por essa sinalização, alguns pré-candidatos buscam um vice que possa “furar a bolha” do seu eleitorado e querem evitar uma chapa “puro sangue”, ou seja, formada por dois integrantes da mesma sigla. “Tem situações em que o vice não faz diferença nenhuma”, diz Ranulfo. “A chapa puro sangue você mostra que é só o seu perfil, não precisa sinalizar para ninguém.”
Coligação e tempo de TV como trunfo
Outro ponto relevante, segundo articuladores das equipes, é a coligação partidária. Ou seja, conquistar um candidato à vice que venha acompanhado de outro partido. Na prática, isso oferece à chapa maior tempo de rádio e TV — trunfo fundamental durante uma campanha presidencial. A coligação também deve ser definida no período das convenções partidárias, que começam no dia 20 de julho e vão até o dia 5 de agosto.
Lula mantém Alckmin; Flávio Bolsonaro busca mulher
No fim de março, o presidente Lula confirmou que repetiria a formação da sua chapa em 2022, ou seja, com Geraldo Alckmin na vice-presidência. Aliados de Alckmin no PSB passaram meses defendendo a continuidade do seu nome e destacam três qualidades que, segundo eles, o tornam “vice-perfeito”: discrição, já que não tenta chamar mais atenção do que Lula; fidelidade, característica fundamental diante do trauma do PT com o impeachment de Dilma Rousseff; e competência diante das articulações contra o tarifaço de Donald Trump, já que Alckmin era também ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio. A decisão de continuidade, contudo, não foi simples. No início do ano, parte do entorno do presidente Lula defendia a chapa com um vice do MDB, sob o argumento de que “furaria a bolha” da centro-esquerda.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro (PL) busca uma mulher para compor sua chapa, numa tentativa de reduzir resistências entre o eleitorado feminino, segmento no qual o ex-presidente Jair Bolsonaro enfrenta rejeição histórica. A escolha de uma vice feminina pode sinalizar abertura a pautas de gênero e ampliar o apelo eleitoral, mas ainda não há nome definido publicamente.
O cenário geral das negociações de vice reflete a complexidade do tabuleiro eleitoral de 2026, com partidos buscando equilibrar sinalizações ideológicas, pragmatismo eleitoral e a necessidade de maximizar o tempo de exposição na mídia. As convenções partidárias, que começam em 20 de julho, serão o palco para o desfecho dessas articulações.
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