Adoção de IA no trabalho dispara no Brasil, enquanto temor de substituição profissional recua, revela Datafolha

O uso de inteligência artificial (IA) no ambiente de trabalho cresceu de forma expressiva no Brasil, enquanto o receio de que a tecnologia substitua empregos perdeu força entre os profissionais, segundo levantamento inédito do Datafolha divulgado nesta quinta-feira. A pesquisa, realizada entre os dias 10 e 14 de junho de 2026, ouviu 2.016 trabalhadores em 130 municípios brasileiros e aponta que 38% dos entrevistados já utilizam ferramentas de IA em suas rotinas profissionais, contra 22% registrados em levantamento similar feito em 2024. Ao mesmo tempo, o percentual dos que temem ser substituídos por sistemas automatizados caiu de 45% para 31% no mesmo período, sinalizando uma mudança na percepção pública sobre os impactos da automação.

O estudo do Datafolha revela que a adoção da IA é mais acentuada entre profissionais das áreas de tecnologia da informação (62%), comunicação e marketing (55%) e serviços financeiros (48%). Entre os setores com menor incorporação da tecnologia estão a construção civil (12%) e o comércio varejista (18%). A pesquisa também mostra que 29% dos trabalhadores que usam IA afirmam que a ferramenta aumentou sua produtividade, enquanto 21% relatam melhora na qualidade das entregas. Apenas 8% disseram que a IA prejudicou seu desempenho.

Panorama político e econômico da automação no Brasil

A redução do medo de substituição ocorre em um contexto de debates acalorados no Congresso Nacional sobre a regulamentação da inteligência artificial. O Projeto de Lei 2.338/2023, que estabelece o marco legal da IA no Brasil, está em tramitação na Câmara dos Deputados e prevê a criação de um órgão fiscalizador, além de exigir que empresas informem claramente quando um sistema automatizado é usado em processos seletivos ou demissões. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) defende que a regulamentação não iniba a inovação, enquanto centrais sindicais, como a CUT, pressionam por garantias de requalificação profissional para os trabalhadores afetados pela automação.

O governo federal, por meio do Ministério do Trabalho e Emprego, anunciou em maio um programa de capacitação em IA para 500 mil trabalhadores até 2028, com investimento inicial de R$ 1,2 bilhão. A iniciativa, batizada de Brasil Digital Inclusivo, prevê cursos gratuitos em parceria com plataformas de ensino a distância e empresas de tecnologia. O Datafolha aponta que 67% dos entrevistados consideram importante que o governo ofereça treinamento em IA, mas apenas 12% afirmam ter acesso a esses programas atualmente.

No plano internacional, o Fórum Econômico Mundial estima que a IA pode eliminar 85 milhões de empregos no mundo até 2027, mas também criar 97 milhões de novas funções, especialmente nas áreas de análise de dados, manutenção de sistemas e ética em tecnologia. O levantamento do Datafolha sugere que o Brasil segue essa tendência global, com 44% dos trabalhadores que usam IA afirmando que a ferramenta os ajudou a aprender novas habilidades, enquanto 19% relataram que a tecnologia abriu oportunidades de promoção ou mudança de carreira.

A pesquisa também destaca desigualdades regionais e de renda. Nas regiões Sudeste e Sul, o uso de IA atinge 45% e 41% dos trabalhadores, respectivamente, enquanto no Norte e Nordeste os percentuais caem para 22% e 19%. Entre os trabalhadores com renda acima de cinco salários mínimos, 58% usam IA, contra 16% entre os que ganham até um salário mínimo. O Datafolha conclui que, embora o medo de substituição tenha diminuído, a adoção da tecnologia ainda é desigual e pode aprofundar a exclusão digital se não houver políticas públicas eficazes de inclusão.

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