O governo Lula (PT) ampliou despesas em propaganda no primeiro semestre deste ano, às vésperas do início da campanha do presidente à reeleição, e destinou mais que o dobro dos gastos do governo Jair Bolsonaro (PL) no mesmo período de 2022. De acordo com dados oficiais divulgados pela Folha de S.Paulo em 29 de junho de 2026, o montante liberado chega a R$ 520 milhões, valor que supera significativamente os R$ 250 milhões aplicados pelo governo anterior no primeiro semestre de 2022, também em ano eleitoral.
O aumento expressivo ocorre em um contexto de forte polarização política e de disputa acirrada pela sucessão presidencial. Enquanto o governo Lula busca consolidar sua base de apoio e comunicar realizações, a oposição, liderada por figuras como o ex-presidente Jair Bolsonaro, critica o que considera uso da máquina pública para fins eleitorais. A liberação dos recursos ocorre justamente no período que antecede o início oficial da campanha, marcado para agosto, e levanta questionamentos sobre a legalidade e a ética do aumento de gastos com publicidade institucional em ano de eleição.
Comparação com 2022 e impacto fiscal
Em 2022, o governo Bolsonaro havia destinado R$ 250 milhões para propaganda no primeiro semestre, valor que já era considerado elevado por especialistas em contas públicas. Agora, o governo Lula praticamente dobra esse montante, atingindo R$ 520 milhões. A diferença é ainda mais significativa quando se considera que a inflação acumulada entre 2022 e 2026 foi de aproximadamente 20%, o que significa que o aumento real ultrapassa os 70%. Os recursos são provenientes do orçamento da Secretaria de Comunicação Social (Secom) da Presidência da República, que tem como atribuição coordenar a publicidade dos órgãos federais.
O aumento de gastos ocorre em um momento de restrição fiscal, com o governo enfrentando dificuldades para cumprir a meta de déficit zero. A oposição no Congresso Nacional já anunciou que pretende questionar a legalidade do aumento, argumentando que a propaganda institucional não pode ter caráter eleitoral. Líderes da base governista, por outro lado, defendem que a comunicação é essencial para informar a população sobre políticas públicas e que o valor é compatível com a necessidade de divulgação de programas como o Novo PAC e o Bolsa Família.
Panorama político e reações
A decisão de ampliar os gastos com propaganda ocorre em meio a um cenário de queda na popularidade do presidente Lula, segundo pesquisas recentes. O governo aposta na comunicação para reverter a tendência e fortalecer a imagem do presidente antes da campanha. Enquanto isso, partidos de oposição, como PL, PP e Republicanos, articulam uma ofensiva no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) para investigar possíveis abusos. A Procuradoria-Geral da República também foi acionada para analisar se os gastos ferem a legislação eleitoral, que proíbe o uso de publicidade oficial para promoção pessoal de candidatos.
Especialistas em direito eleitoral consultados pela reportagem destacam que, embora a propaganda institucional seja permitida, o aumento expressivo em ano eleitoral pode configurar abuso de poder político, especialmente se houver indícios de que o conteúdo das peças publicitárias exalta a figura do presidente. A Folha de S.Paulo teve acesso a parte do planejamento da Secom, que prevê campanhas em rádio, TV, internet e mídia impressa com foco em obras de infraestrutura e programas sociais.
O debate sobre os limites da comunicação governamental em ano eleitoral promete dominar a agenda política nas próximas semanas, com possíveis reflexos na corrida presidencial. Enquanto isso, o governo Lula segue com a estratégia de ampliar a presença na mídia, em um movimento que já é comparado ao período pré-eleitoral de 2022, quando Bolsonaro também foi acusado de usar a máquina pública para se beneficiar.
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