Uma farmacêutica de 39 anos, residente em Guarulhos (SP), revelou nesta quinta-feira (2) que também foi vítima de Thiago Cristiano Boch, de 38, investigado em Franca (SP) por suspeita de estelionato. Em depoimento ao g1, a mulher, que pediu anonimato, afirmou que manteve um relacionamento de seis meses com o suspeito, entre outubro de 2024 e abril de 2025, e sofreu um prejuízo estimado em R$ 20 mil, decorrente de compras não autorizadas no cartão de crédito e da negociação frustrada de uma moto elétrica. O caso amplia o escopo das investigações contra Boch, que já acumula denúncias de outras ex-companheiras em diferentes estados, revelando um padrão de manipulação emocional e financeira.
“Ele simula um namoro, mas tudo isso é para envolver a pessoa e passamos a ser responsável pelos problemas dele. Ele faz você se sentir culpada, porque a conversa é sempre a mesma. Tem o nome restrito, que não queria me prejudicar, mas estava praticamente em situação de rua”, descreveu a farmacêutica, detalhando a estratégia de convencimento adotada pelo suspeito. O encontro entre os dois ocorreu por meio de um aplicativo de namoro, onde Thiago Cristiano Boch se apresentou como funcionário de uma rede de restaurantes de luxo, o que, segundo a vítima, ajudou a criar uma falsa sensação de credibilidade.
Denúncia em série e padrão de conduta
A decisão da farmacêutica de tornar público seu caso veio após tomar conhecimento de que uma auxiliar de laboratório de 36 anos havia denunciado o então namorado à polícia no dia 19 de junho deste ano, em Franca (SP), relatando um prejuízo de R$ 15 mil. Essa denúncia inicial desencadeou uma investigação que já revelou que Thiago Cristiano Boch possui ampla ficha criminal em pelo menos quatro estados, incluindo São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Paraná, com registros de estelionato e outros crimes financeiros. O modus operandi, conforme apurado pelo g1, envolve a conquista de vítimas em aplicativos de relacionamento, a criação de vínculos afetivos e, em seguida, a solicitação de valores ou o uso não autorizado de cartões de crédito sob justificativas como dívidas, problemas de saúde ou oportunidades de negócio.
Prints de conversas aos quais o g1 teve acesso mostram a farmacêutica cobrando de Thiago a devolução do valor referente a uma moto elétrica que ele teria comprado de um colega de trabalho utilizando o cartão dela. Apesar de a negociação não ter sido efetivada, o dinheiro foi retirado da conta da vítima. “Ele resolveu comprar a moto de um colega de trabalho, me perturbou, me mandava mensagem todo dia, até que me convenceu. Foi assim que ele comprou ‘essa moto’ com o meu cartão”, relatou a farmacêutica, evidenciando a pressão psicológica exercida pelo suspeito.
Manipulação e descoberta da mentira
A farmacêutica contou que descobriu a farsa quando Thiago parou de dar satisfações sobre seu paradeiro um dia após a suposta compra da moto. “Fui buscá-lo no trabalho e ele disse ‘estou de moto, esqueceu? Pode ir embora que, assim que eu sair, vou para sua casa’. Esperei por uns 30 minutos, mas já eram quase 3h da manhã e dormi. Quando acordei, não tinha ligação dele e o celular só dava caixa postal. Perguntei pra uma mulher do trabalho dele se ele estava indo trabalhar de moto e ela falou que não”, detalhou. A partir desse episódio, a vítima iniciou um processo de investigação própria, que a levou a confirmar as suspeitas e a buscar apoio de outras mulheres que haviam passado pela mesma situação.
O caso ganhou repercussão nacional após a primeira denúncia em Franca, e familiares do suspeito já afirmaram que a auxiliar de laboratório que perdeu R$ 15 mil não foi a primeira vítima. A farmacêutica de Guarulhos é a segunda mulher a se manifestar publicamente, mas a polícia trabalha com a hipótese de que o número de vítimas seja maior, dado o histórico criminal de Thiago Cristiano Boch em múltiplos estados. As investigações seguem em andamento na Delegacia de Franca, que já ouviu testemunhas e analisa documentos financeiros e registros de conversas para mapear a extensão dos golpes.
O panorama político e social em torno do caso reflete uma preocupação crescente com a segurança de mulheres em relacionamentos mediados por aplicativos, especialmente diante de crimes financeiros que exploram a confiança e a vulnerabilidade emocional. Organizações de defesa dos direitos das mulheres têm alertado para a necessidade de campanhas de conscientização e de canais de denúncia mais acessíveis, enquanto o Ministério Público de São Paulo avalia a possibilidade de oferecer denúncia formal contra o suspeito, que pode responder por estelionato, furto mediante fraude e outros crimes, com penas que podem ultrapassar 10 anos de reclusão, dependendo da soma dos prejuízos comprovados.
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