A Academia Alagoana de Letras colocou em pauta o tema “Fernandes Lima, abolicionista, tensão dialética”, reacendendo uma polêmica que divide a comunidade cultural e política de Alagoas. O debate ocorre em meio a um forte movimento social que pede a retirada do nome do ex-governador da principal via de acesso a Maceió, sob a acusação de que ele teria perseguido afrodescendentes e ordenado a destruição de terreiros de candomblé durante o episódio conhecido como “Quebra de Xangô”, em 1912. A discussão envolve não apenas a memória do político, mas também a forma como o Estado lida com seu passado de violência racial e religiosa.
O movimento pela renomeação da via ganhou força nos últimos anos, impulsionado por coletivos negros, religiosos de matriz africana e historiadores que apontam a participação ativa de Fernandes Lima na repressão às comunidades de terreiro. Na época, Maceió foi palco de uma onda de violência contra o candomblé, com invasões, depredações e destruição de objetos sagrados. A figura do ex-governador, que também é lembrado por sua atuação abolicionista, gera uma tensão dialética entre seu legado progressista e os atos autoritários atribuídos a ele.
A Academia Alagoana de Letras, ao promover o debate, busca aprofundar a análise histórica sem reduzir a complexidade do personagem. A instituição defende que é preciso contextualizar a época, mas sem ignorar os relatos de violência que marcaram a comunidade afro-religiosa. O evento contou com a participação de historiadores, membros da academia e representantes de movimentos sociais, que expuseram visões divergentes sobre o tema.
O episódio do Quebra de Xangô é um dos capítulos mais sombrios da história alagoana, e sua revisão crítica tem implicações diretas na política de memória do estado. A pressão popular para retirar o nome de Fernandes Lima da via expressa reflete uma demanda por reparação simbólica e reconhecimento do sofrimento imposto às comunidades de terreiro. Enquanto isso, setores conservadores argumentam que a mudança apagaria a contribuição do ex-governador para a abolição da escravatura.
O debate na Academia Alagoana de Letras evidencia que a questão vai além de uma simples troca de nomes: trata-se de um embate sobre qual versão do passado deve ser celebrada nos espaços públicos. A decisão final caberá ao poder público, mas a sociedade civil organizada já sinaliza que não aceitará um silenciamento sobre o tema. A polêmica promete se estender, com novos capítulos sendo escritos tanto nas ruas quanto nos salões acadêmicos.
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