O assédio eleitoral no ambiente de trabalho ganhou contornos alarmantes no Brasil, com práticas que vão desde a disseminação de narrativas de crise econômica até a exigência de compartilhamento de propaganda política em redes sociais. Uma pesquisa inédita do Tribunal Superior do Trabalho (TST), divulgada com exclusividade ao g1, analisou 138 processos de todas as regiões do país e identificou que o chamado terror psicológico — presente em 81,9% dos casos — é a forma mais comum de pressão, muitas vezes associada a ameaças de demissão, perda de salários ou colapso social. O estudo, que utilizou uma amostra estatisticamente válida, também revelou que ferramentas digitais, especialmente o WhatsApp, estiveram presentes em 67,4% dos casos, sendo o principal canal para a propagação de conteúdo político obrigatório.
Os dados do Painel Nacional de Monitoramento do Assédio Eleitoral (PNMAE), criado após a instituição de mecanismos específicos para identificação desses casos, mostram que, desde 2023, a Justiça do Trabalho registrou 738 processos de assédio eleitoral no país. No entanto, o número de denúncias é significativamente maior: em 2022, o Ministério Público do Trabalho (MPT) recebeu 3.370 denúncias, recorde da série histórica. Em 2026, até agora, foram 74 denúncias, mas a campanha eleitoral acabou de começar, o que sugere que os números podem crescer exponencialmente nos próximos meses.
As práticas mais comuns de assédio eleitoral
O estudo do TST identificou uma série de práticas recorrentes que configuram assédio eleitoral. Entre elas, destacam-se a criação de grupos de WhatsApp para propaganda política, o envio obrigatório de conteúdos eleitorais, a exigência de compartilhamento de mensagens políticas, a obrigação de colocar “santinhos” em status pessoais, o monitoramento das redes sociais dos trabalhadores e a fiscalização do posicionamento político dos empregados. Essas ações, muitas vezes realizadas por superiores hierárquicos, criam um ambiente de intimidação e cerceamento da liberdade de escolha do trabalhador.
O terror psicológico, a modalidade mais frequente, consiste na disseminação de narrativas alarmistas sobre possíveis resultados eleitorais. Mensagens associando a vitória de determinado candidato ao fechamento de empresas, perda de empregos, redução salarial, crise econômica ou colapso social são comuns nos processos analisados. Essa estratégia visa influenciar o voto do trabalhador por meio do medo, uma prática que fere diretamente a dignidade e os direitos fundamentais do cidadão.
Panorama e impacto social
O assédio eleitoral no trabalho não é um fenômeno isolado, mas reflete um contexto mais amplo de polarização política e de utilização de mecanismos de pressão em ambientes corporativos. A pesquisa do TST, ao sistematizar essas práticas, fornece subsídios importantes para o combate a essa forma de violência, que atinge principalmente trabalhadores em situação de vulnerabilidade. Muitos processos são ajuizados após o trabalhador deixar o emprego, o que indica que o medo de represálias durante o vínculo empregatício é um fator que inibe denúncias imediatas.
Especialistas apontam que a legislação trabalhista brasileira já prevê punições para o assédio eleitoral, mas a efetividade dessas medidas depende de fiscalização e de uma mudança cultural nas relações de trabalho. O aumento no número de processos e denúncias, no entanto, demonstra que a Justiça do Trabalho está atenta a essas práticas e que os trabalhadores estão cada vez mais conscientes de seus direitos. A expectativa é que, com o avanço das investigações e a divulgação de dados como os do TST, o assédio eleitoral seja cada vez mais coibido, garantindo eleições livres e democráticas no país.
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