Uma auditoria independente revelou risco de prejuízo milionário em uma operação de R$ 741 milhões envolvendo o fundo Digimais, que vendeu à própria controladora um ativo por valor 10 vezes maior do que o pago originalmente, inflando artificialmente o patrimônio líquido da instituição. O caso, que já está sob investigação de órgãos reguladores, expõe fragilidades na governança corporativa e acende alerta para investidores e credores expostos ao mercado de fundos de investimento no Brasil.
De acordo com o relatório da auditoria, obtido com exclusividade, a operação ocorreu em 2023, quando o Digimais adquiriu um fundo por aproximadamente R$ 74 milhões e, meses depois, o revendeu à sua própria controladora por R$ 741 milhões — um acréscimo de 900% sem lastro em ativos reais ou valorização de mercado. A transação foi registrada como aumento de patrimônio, mas a auditoria aponta que não houve contrapartida econômica que justificasse o valor, configurando potencial fraude contábil e risco de insolvência.
Impacto financeiro e exposição de credores
O montante de R$ 741 milhões representa cerca de 12% do patrimônio total declarado pelo Digimais à época, segundo dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Caso a operação seja desfeita ou o valor seja questionado judicialmente, o fundo pode sofrer perdas significativas, afetando diretamente cotistas e instituições financeiras que mantêm exposição ao ativo. A auditoria estima que o prejuízo potencial pode chegar a R$ 667 milhões, considerando a diferença entre o valor pago e o valor inflado.
Além disso, a operação envolveu a Controladora S.A., empresa que detém 100% das cotas do Digimais, o que levanta suspeitas de conflito de interesses e falta de transparência. A transação não foi submetida a aprovação de assembleia de cotistas nem divulgada em relatórios trimestrais, conforme exige a legislação do mercado de capitais brasileiro.
Panorama político e regulatório
O caso ganha contornos políticos em um momento de debate sobre a regulação do mercado de fundos de investimento no Congresso Nacional. Em 2025, a Câmara dos Deputados aprovou o Projeto de Lei 2.345/2024, que endurece as regras para operações entre partes relacionadas e exige auditoria externa obrigatória para fundos com patrimônio acima de R$ 500 milhões. A oposição, no entanto, critica a demora na tramitação e aponta que o caso Digimais poderia ter sido evitado com regras mais rígidas.
O Banco Central do Brasil e a CVM já abriram procedimentos administrativos para apurar a operação, e o Ministério Público Federal (MPF) foi acionado por associações de defesa do consumidor financeiro. Especialistas ouvidos pela reportagem destacam que o caso pode gerar um efeito cascata no mercado, com revisão de valuations e aumento da aversão a risco entre investidores institucionais.
A Republica do Povo tentou contato com a Controladora S.A. e com a direção do Digimais, mas não obteve retorno até o fechamento desta edição. O espaço permanece aberto para manifestações.
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