Brasil investe R$ 41,7 bilhões para retomar protagonismo na indústria naval, mas desafios históricos persistem

O governo federal anunciou um pacote de R$ 41,7 bilhões em investimentos para a indústria naval brasileira, contemplando 890 obras em estaleiros espalhados pelo país. A iniciativa, batizada informalmente de ‘polo naval de Lula 3.0’, busca reerguer um setor que já foi símbolo de potência nacional, mas que acumula décadas de altos e baixos. A declaração do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de que a indústria naval brasileira vai ‘dar uma surra nos coreanos e nos chineses’ reacendeu o debate sobre a viabilidade do projeto, em meio a um histórico de promessas não cumpridas e crises no setor.

O Brasil tenta construir uma frota nacional robusta desde o século 17, quando o galeão Padre Eterno, um dos maiores barcos do mundo à época, foi lançado no estaleiro da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro. No entanto, a trajetória recente é marcada por dificuldades. A Transpetro, subsidiária da Petrobras, e estaleiros como o Atlântico Sul (PE) e o Rio Grande (RS) enfrentaram atrasos, cancelamentos de contratos e demissões em massa, especialmente após a Operação Lava Jato, que paralisou boa parte da cadeia produtiva.

Panorama político e econômico

O anúncio ocorre em um contexto de retomada de políticas industriais pelo governo Lula, que também lançou o Novo PAC e o programa Mover (Mobilidade Verde). A indústria naval é vista como estratégica para gerar empregos (estima-se 80 mil postos diretos e indiretos) e reduzir a dependência de fretes internacionais. No entanto, analistas apontam que a concorrência com estaleiros asiáticos, que dominam o mercado com custos mais baixos e tecnologia avançada, exige mais do que discurso. A Coreia do Sul e a China respondem por mais de 70% da construção naval global, enquanto o Brasil detém menos de 1%.

Especialistas do setor, como a Associação Brasileira da Indústria Naval e Offshore (Sinaval), alertam que os R$ 41,7 bilhões precisam ser acompanhados de financiamento acessível, mão de obra qualificada e encomendas estáveis da Petrobras e da Transpetro. A Petrobras, por sua vez, anunciou planos de encomendar 40 novos navios até 2030, mas o cronograma ainda é incerto. A declaração de Lula, feita durante evento em Rio Grande (RS), foi recebida com ceticismo por parte do mercado, que lembra os fracassos do passado, como o programa Promef (Programa de Modernização e Expansão da Frota), que prometeu 49 navios e entregou apenas 13.

O governo também enfrenta resistência política. Parlamentares da oposição, como o deputado Danilo Forte (União-CE), questionam a transparência dos contratos e o risco de novo endividamento estatal. Já governadores do Nordeste, como Fátima Bezerra (PT-RN) e Paulo Câmara (PSB-PE), pressionam por investimentos em seus estados, onde estaleiros como o Atlântico Sul e o Inace (CE) aguardam novas encomendas. A Transpetro anunciou que os primeiros navios do novo pacote devem ser contratados ainda em 2026, com previsão de entrega a partir de 2029.

Enquanto isso, a indústria naval brasileira tenta se reerguer em meio a um cenário global de transição energética, com demanda crescente por navios movidos a combustíveis alternativos, como gás natural e hidrogênio verde. O Brasil, que possui uma das maiores reservas de petróleo do pré-sal, busca aliar a construção naval à exploração offshore, mas o caminho é longo. A frase de Lula, embora motivacional, contrasta com a realidade de um setor que, até hoje, ‘levou surras’ – como ironizou o colunista Elio Gaspari, da Folha de S.Paulo, ao lembrar que a Viúva (referência à Petrobras) foi quem mais sofreu com os fracassos passados.

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