O Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) abriu investigação contra a Live Nation e sua controlada Ticketmaster após receber denúncia formal que aponta supostas práticas de venda casada e fechamento de mercado no setor de shows e eventos no Brasil. A denúncia, protocolada por concorrentes e entidades do setor, alega que a multinacional estaria utilizando sua posição dominante na comercialização de ingressos para impor contratos exclusivos a produtoras e casas de show, eliminando a concorrência e prejudicando o consumidor final com preços mais altos e menor oferta de serviços.
A investigação do Cade mira especificamente a atuação da Live Nation no mercado brasileiro de produção de eventos e na venda de ingressos por meio da Ticketmaster. Segundo a denúncia, a empresa condiciona a realização de shows em grandes casas de espetáculo à contratação exclusiva de seus serviços de bilheteria, prática conhecida como venda casada. Isso impediria que outras plataformas de ingressos, como Sympla, Ingresso Rápido e Eventim, pudessem competir de forma justa, criando um monopólio de fato em praças estratégicas como São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
O impacto econômico dessa prática, caso confirmada, é significativo. A Live Nation controla hoje cerca de 60% do mercado de grandes shows internacionais no Brasil, e a Ticketmaster responde por aproximadamente 45% das vendas de ingressos online no país. A denúncia aponta que, ao amarrar a produção de eventos à sua plataforma de ingressos, a empresa consegue cobrar taxas de serviço mais altas – que chegam a 20% do valor do bilhete – sem que o consumidor tenha alternativa. Em alguns casos, shows de artistas internacionais de grande porte, como Coldplay e Taylor Swift, tiveram ingressos vendidos exclusivamente pela Ticketmaster, mesmo quando outras plataformas ofereciam condições mais vantajosas.
Panorama político e regulatório
A investigação do Cade ocorre em um momento de crescente atenção do governo federal e do Congresso Nacional às práticas de grandes empresas de tecnologia e entretenimento. Nos últimos meses, a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) também abriram procedimentos para apurar denúncias de abuso de poder econômico em plataformas digitais. O caso da Live Nation e da Ticketmaster se soma a uma série de ações antitruste que miram o setor de eventos, que movimentou mais de R$ 12 bilhões em 2025, segundo dados da Associação Brasileira de Promotores de Eventos (Abrape).
Parlamentares da Frente Parlamentar Mista em Defesa da Concorrência já sinalizaram que devem convocar audiências públicas para discutir o tema. O deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), relator de projetos de lei sobre plataformas digitais, afirmou que “a concentração de mercado no setor de entretenimento é preocupante e pode exigir regulação específica para garantir a livre concorrência e os direitos do consumidor”. Já o senador Eduardo Braga (MDB-AM), presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), defendeu que o Cade atue com celeridade para evitar que o mercado brasileiro se torne refém de uma única empresa.
A Live Nation e a Ticketmaster foram notificadas pelo Cade e têm prazo de 30 dias para apresentar defesa. Em nota, a empresa afirmou que “opera em conformidade com a legislação brasileira e que suas práticas comerciais são transparentes e voltadas a oferecer a melhor experiência para fãs e artistas”. A investigação corre em sigilo, mas fontes do órgão antitruste indicam que, se as acusações forem comprovadas, a multa pode chegar a R$ 200 milhões, além da obrigação de revisar contratos e abrir mão de exclusividades.
O caso reacende o debate sobre o poder de grandes conglomerados no setor cultural e a necessidade de políticas públicas que garantam diversidade de oferta e preços justos. Enquanto isso, consumidores e pequenos produtores aguardam os desdobramentos, na esperança de que a investigação traga mais equilíbrio a um mercado cada vez mais concentrado.
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