A frágil trégua entre Estados Unidos e Irã ruiu menos de um mês após o anúncio de um acordo provisório para interromper os bombardeios e retomar as negociações sobre o programa nuclear iraniano. A declaração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, durante a cúpula da Otan na Turquia — “Para mim, acho que acabou. Eu não quero mais lidar com eles” — veio após uma nova troca de ataques entre os dois países, reacendendo o temor de um conflito de consequências globais. A escalada de violência ocorre em meio aos cortejos do funeral do aiatolá Ali Khamenei e ao teste de força do regime sob o comando de seu filho, Mojtaba.
O impacto imediato foi sentido nos mercados internacionais: o preço do petróleo disparou, as bolsas caíram e voltou a crescer a preocupação com o Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de um quinto do petróleo transportado no mundo. A retomada dos ataques reacende o temor de um conflito de consequências globais, com riscos de interrupção no fornecimento de energia e instabilidade financeira em escala planetária.
Os sinais do funeral de Khamenei e a sucessão no Irã
O funeral do aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã por décadas, ocorre em um momento de transição delicada. O regime iraniano enfrenta um teste de força sob o comando de seu filho, Mojtaba, que busca consolidar o poder em meio à crise com os Estados Unidos. A escalada de violência durante os cortejos envia sinais ambíguos ao mundo: ao mesmo tempo em que demonstra resistência, expõe fragilidades internas e a disputa por influência entre facções do governo iraniano.
Especialistas apontam que a retomada dos ataques não é apenas uma resposta militar, mas também uma jogada política para fortalecer a posição do novo líder diante de uma base de apoio que espera firmeza contra o Ocidente. A situação é agravada por declarações contraditórias de Donald Trump, que em uma mesma coletiva confundiu Irã com o Japão e chamou o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky de Vladimir Putin, gerando incerteza sobre a estratégia americana.
Panorama político e riscos de escalada
O colapso da trégua ocorre em um contexto de tensões acumuladas: os EUA lançaram novos ataques contra o Irã após a declaração de Trump sobre o fim do cessar-fogo, enquanto o chanceler iraniano afirmou que o país responderá com ações firmes. A televisão iraniana já anunciou que o Irã fechará o Estreito de Ormuz caso ocorram novos ataques, uma ameaça que pode paralisar o comércio global de petróleo.
Para analisar o cenário, o podcast O Assunto, do g1, ouviu Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais da FGV e pesquisador da Universidade de Harvard e do Carnegie Endowment. Segundo ele, os interesses por trás da retomada dos ataques envolvem tanto a necessidade de Trump de mostrar força diante de aliados da Otan quanto a tentativa do novo governo iraniano de consolidar sua autoridade. “O risco de uma escalada militar descontrolada é real, especialmente com a ameaça ao Estreito de Ormuz, que pode desencadear uma crise energética global”, alerta Stuenkel.
Enquanto isso, Trump alterna entre declarações belicosas e conciliatórias: após criticar aliados na cúpula da Otan, disse ter havido “muita união” no encontro. O presidente americano também afirmou ser o “número 1” da lista de alvos do Irã, em meio a declarações contraditórias sobre a guerra. A comunidade internacional observa com apreensão, temendo que o colapso da trégua leve a um conflito de proporções imprevisíveis.
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