O Partido dos Trabalhadores (PT) mobilizou sua cúpula nacional e regional para conter uma crise com o Partido Socialista Brasileiro (PSB) em Pernambuco, após declarações do ministro do Desenvolvimento Social, Wellington Dias, que sugeriram a possibilidade de um palanque duplo para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva no estado em 2026. A fala do ministro, ocorrida durante evento em Brasília na última quarta-feira, gerou reação imediata do prefeito do Recife, João Campos (PSB), que classificou a ideia como “inviável” e “desrespeitosa” com a aliança histórica entre as legendas. O episódio expõe as fragilidades da base governista e acendeu alerta no Planalto, que vê na disputa pernambucana um termômetro para as eleições presidenciais.
A declaração de Wellington Dias ocorreu em entrevista coletiva, quando ele afirmou que o PT poderia apoiar simultaneamente a reeleição da governadora Raquel Lyra (PSB) e uma candidatura própria ao Senado, desde que houvesse “diálogo e unidade”. A fala foi interpretada como uma tentativa de agradar a todos os lados, mas teve efeito contrário. João Campos, pré-candidato ao governo estadual pelo PSB, reagiu publicamente, afirmando que “não existe palanque duplo que sustente uma aliança” e que o partido não aceitaria “meias palavras” sobre o apoio a Lula. A reação do prefeito, que é um dos principais nomes do PSB para 2026, forçou o PT a recuar e buscar uma saída negociada.
Panorama político e impactos na aliança
A crise em Pernambuco ocorre em um momento delicado para a base de Lula, que tenta consolidar alianças estaduais para 2026. O estado é um dos principais redutos eleitorais do PSB, que governou por oito anos com Paulo Câmara e hoje tem Raquel Lyra como governadora, eleita em 2022 com apoio do PT. No entanto, a relação entre os partidos se deteriorou nos últimos meses, com divergências sobre a sucessão estadual e a distribuição de cargos no governo federal. A fala de Wellington Dias foi vista como um “tiro no pé” por aliados, que temem que o racha beneficie a oposição, especialmente o PL e o União Brasil, que já articulam candidaturas próprias.
Nos bastidores, o presidente nacional do PT, Gleisi Hoffmann, e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, entraram em campo para apaziguar os ânimos. Em reunião por videoconferência com João Campos e dirigentes do PSB, Gleisi afirmou que a declaração de Wellington Dias foi “infeliz” e que o partido reafirma o compromisso com a aliança em Pernambuco. “O PT não tem plano B para o estado. Nosso candidato a governador será do PSB, e vamos trabalhar juntos para reeleger Lula”, disse a presidente petista, em nota divulgada à imprensa. Apesar do aceno, o PSB cobra garantias formais de que não haverá interferência na escolha do candidato ao Senado e que o PT respeitará a liderança de João Campos na sucessão estadual.
O episódio também expõe as divisões internas no PT pernambucano, onde alas defendem uma candidatura própria ao governo, lideradas pelo deputado federal Carlos Veras e pelo senador Humberto Costa. A ala majoritária, no entanto, apoia a aliança com o PSB, por considerar que uma candidatura avulsa enfraqueceria Lula no estado. A crise atual, portanto, não é apenas entre PT e PSB, mas também dentro do próprio PT, que precisa equilibrar as ambições locais com a estratégia nacional.
Enquanto isso, a governadora Raquel Lyra mantém-se em silêncio público, mas aliados afirmam que ela vê com preocupação a instabilidade na base. A gestora, que enfrenta desafios de aprovação, depende do apoio do PT para aprovar projetos na Assembleia Legislativa e para viabilizar sua reeleição. A crise, no entanto, pode abrir espaço para que o PL, liderado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, e o União Brasil, com o senador Eduardo Girão, lancem candidaturas competitivas, aproveitando o desgaste da aliança governista.
O desfecho da crise deve ser definido nos próximos dias, com novas reuniões entre as cúpulas partidárias. O Planalto, por sua vez, monitora a situação de perto, ciente de que Pernambuco é um estado estratégico para a reeleição de Lula, que venceu no estado em 2022 com 58% dos votos válidos. A expectativa é que um acordo seja fechado até o final de julho, quando os partidos iniciam as convenções. Até lá, o PT terá que demonstrar habilidade política para evitar que o racha se aprofunde e comprometa a unidade da base governista em todo o Nordeste.
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