O crime custa ao menos R$ 107 bilhões por ano para a indústria brasileira, entre prejuízos diretamente causados pelo mercado ilícito e gastos associados à prevenção e segurança, conforme levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI) divulgado neste domingo (31 de maio de 2026). O montante equivale a cerca de 1,5% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional e representa um peso significativo sobre a competitividade do setor produtivo, que já enfrenta desafios estruturais como carga tributária elevada e infraestrutura deficiente.
O estudo da CNI detalha que os custos diretos com roubos, furtos, fraudes e contrabando somam aproximadamente R$ 62 bilhões anuais, enquanto os gastos com segurança privada, sistemas de monitoramento e seguros alcançam R$ 45 bilhões. A pesquisa ouviu mais de 1.200 empresas de todos os portes e regiões do país, indicando que os setores mais afetados são o de logística, comércio atacadista e indústria de transformação, especialmente nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais.
Impactos na economia e na competitividade
O presidente da CNI, Ricardo Alban, afirmou que o custo do crime é um dos principais entraves ao crescimento industrial brasileiro. “Não se trata apenas de perdas materiais. O ambiente de insegurança jurídica e física afasta investimentos, encarece o crédito e reduz a produtividade”, declarou. A entidade estima que, sem esses custos, a indústria poderia aumentar sua participação no PIB em até 0,8 ponto percentual, gerando cerca de 200 mil novos empregos formais.
O levantamento também aponta que as empresas gastam, em média, 3,5% de seu faturamento com medidas de segurança, percentual que sobe para 6% em regiões metropolitanas com altos índices de criminalidade. Pequenas e médias empresas são as mais vulneráveis, pois não conseguem diluir esses custos em larga escala, o que compromete sua sobrevivência no mercado.
Panorama político e reações
O estudo da CNI ocorre em meio a um debate nacional sobre segurança pública e reformas estruturais. O governo federal, sob a gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, anunciou recentemente o Plano Nacional de Segurança para a Indústria, que prevê investimentos de R$ 15 bilhões em inteligência policial, rastreamento de cargas e integração de bases de dados. No entanto, especialistas criticam a lentidão na implementação e a falta de coordenação entre União, estados e municípios.
No Congresso Nacional, tramitam projetos como o PL 4.567/2025, que endurece penas para crimes contra o patrimônio industrial, e a PEC 45/2024, que vincula parte dos recursos do Fundo Nacional de Segurança Pública a ações de combate ao mercado ilícito. A oposição, por sua vez, cobra maior rigor no controle de fronteiras e no combate ao contrabando, que responde por cerca de 30% dos prejuízos totais apontados pela CNI.
Para o economista Marcos Mendes, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), os números da CNI reforçam a urgência de uma política de Estado para o setor. “O crime organizado se adapta rapidamente às brechas legais e tecnológicas. Sem uma ação coordenada e com investimento contínuo, o custo tende a crescer”, alertou. A CNI defende a criação de um observatório permanente de custos do crime, com atualização anual dos dados, para subsidiar políticas públicas mais eficazes.
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