O dólar abriu em forte alta nesta terça-feira (23), cotado a R$ 5,45, após a divulgação da ata da última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária) do Banco Central, que sinalizou a manutenção de uma política monetária contracionista por um período prolongado. A moeda americana registrou valorização de 1,2% nos primeiros minutos de negociação, refletindo a percepção de que o aperto monetário no Brasil continuará pressionando a economia, enquanto investidores reavaliam o cenário fiscal doméstico e as incertezas globais.
A ata do Copom, divulgada na manhã de hoje, indicou que o colegiado avalia que o ciclo de alta da Selic pode se estender além do previsto, devido à persistência da inflação de serviços e à resiliência do mercado de trabalho. O documento destacou que “o cenário prospectivo para a inflação segue desafiador, com riscos assimétricos para cima”, o que levou os membros do comitê a defenderem uma postura cautelosa. A sinalização contrasta com expectativas anteriores de que o BC pudesse iniciar um ciclo de cortes ainda no segundo semestre, gerando apreensão entre agentes financeiros.
O movimento de alta do dólar também foi influenciado pelo ambiente externo adverso, com o fortalecimento global da moeda americana diante de dados econômicos robustos nos Estados Unidos e da perspectiva de que o Federal Reserve mantenha juros elevados por mais tempo. No Brasil, a combinação de incertezas fiscais — com o governo ainda sem definir o novo arcabouço fiscal — e a deterioração das contas públicas amplia a pressão sobre o câmbio. Especialistas apontam que a falta de clareza sobre a trajetória da dívida pública e o aumento dos gastos obrigatórios têm afastado investidores estrangeiros, que reduziram exposição a ativos brasileiros nas últimas semanas.
O impacto da alta do dólar já se reflete em setores estratégicos da economia. Importadores de insumos industriais e matérias-primas, como fertilizantes e componentes eletrônicos, relatam aumento de custos que deve ser repassado aos preços finais nos próximos meses. No mercado de combustíveis, a Petrobras ainda não anunciou reajustes, mas a defasagem em relação aos preços internacionais já ultrapassa 10%, segundo a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis (Abicom). Já o setor de turismo projeta queda na demanda por viagens ao exterior, com a moeda americana mais cara encarecendo passagens e hospedagens.
No plano político, a reação do governo foi cautelosa. O Ministério da Fazenda, em nota, afirmou que “monitora a evolução do câmbio e reafirma o compromisso com a responsabilidade fiscal”, mas não anunciou medidas concretas para conter a volatilidade. Parlamentares da oposição criticaram a condução da política econômica, enquanto aliados do Executivo defenderam a necessidade de aprovação rápida das reformas estruturais, como a tributária e a administrativa, para ancorar as expectativas do mercado. O presidente do Senado, em discurso, pediu “paciência e diálogo” entre os Poderes para evitar crises institucionais que possam agravar o cenário.
A alta do dólar ocorre em um contexto de fragilidade fiscal e política, com o governo enfrentando dificuldades para aprovar medidas de ajuste no Congresso. O déficit primário projetado para 2026, de R$ 150 bilhões, e o crescimento da dívida bruta, que já ultrapassa 80% do PIB, são apontados por analistas como fatores estruturais que pressionam o câmbio. Enquanto isso, o mercado de trabalho mostra sinais de aquecimento, com taxa de desemprego em 7,8%, mas a inflação ao consumidor, medida pelo IPCA, acumula alta de 4,5% nos últimos 12 meses, acima do centro da meta de 3,5%.
Para o economista-chefe de uma consultoria independente, ouvido pela reportagem, “a ata do Copom confirma que o BC não terá espaço para afrouxar a política monetária tão cedo, o que mantém o real sob pressão. A solução de longo prazo passa por um ajuste fiscal crível e pela retomada da confiança dos investidores”. A expectativa é de que o dólar continue volátil nos próximos dias, com investidores atentos à próxima reunião do Copom, em agosto, e aos desdobramentos das negociações fiscais no Congresso.
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