Duas semanas após o duplo terremoto que devastou a Venezuela em 24 de junho de 2026, deixando mais de 3.800 mortos e milhares de desaparecidos, famílias inteiras ainda cavam manualmente entre os escombros de prédios desabados no estado de La Guaira, o mais atingido pela tragédia. Em meio à poeira e ao desespero, parentes como Ciro Ocando e Damián Molero continuam a escavação por conta própria, após o abandono das equipes oficiais de resgate, denunciando a falta de apoio do governo e das forças armadas. A vida na região, segundo relatos, simplesmente parou.
O venezuelano Ciro Ocando parou ao receber um álbum com fotos de seus filhos de um homem que saía de um túnel aberto entre os escombros. “Estou no lugar certo, mas há muitos obstáculos”, disse, após olhar as fotos por alguns segundos e retomar o trabalho. Ele cava sem descanso para encontrar seus dois filhos adolescentes, de 13 e 18 anos, que presume estarem enterrados sob os escombros de um dos prédios destruídos de Playa Grande, em La Guaira. “A vida parou aqui faz duas semanas”, contou à AFP.
Ocando e seus irmãos chegaram ao local depois dos terremotos e nunca mais foram embora. No início, esperavam que os jovens, assim como a tia deles, fossem resgatados com vida, mas agora só querem recuperar seus corpos. A família montou um acampamento provisório em frente às ruínas. Ao lado, um contêiner de lixo transbordando atrai uma legião de moscas que depois pousam sobre seus colchões ou sobre as roupas que secam sob o sol implacável.
Não é a única família na mesma situação. Dezenas de parentes de desaparecidos temem que as máquinas arrastem os escombros e nunca consigam recuperar os corpos de seus entes queridos. Muitos, como Ocando, continuam escavando mesmo depois que as equipes de resgate foram embora, movidos pelo desespero. “Esse aparelho de iluminação, o gerador, as ferramentas, tudo é por minha conta, fui eu que comprei tudo”, ressaltou Ocando, enquanto alguns homens seguem retirando escombros do pequeno túnel.
Após mais de uma semana de esforços, na quarta-feira (8 de julho) conseguiram chegar até o apartamento onde os dois adolescentes viviam com a tia. O álbum de fotos que acabam de encontrar é a prova de que estavam no local. Lá dentro, nove pessoas tentam encontrá-los. Em cima, outras perfuram a partir de outros ângulos, também tentando achar os seus, agarradas à possibilidade de um milagre. Uma bandeira venezuelana tremula em meio aos escombros de um prédio que desabou em Caraballeda, no estado de La Guaira.
Damián Molero, irmão de Ocando, reconhece que eles arriscam a vida ao desafiar as entranhas de uma massa de concreto em ruínas. “Mas, para nós, os familiares, vale a pena se arriscar, eles (o governo) só querem demolir”, afirmou, dizendo-se “impotente, com raiva, desesperado”. “A Guarda Nacional e o Exército vieram com pás novas para fazer simulações (…) Nós sabíamos que aqui não haveria resposta nenhuma, aqui não houve apoio nenhum”, denunciou, apontando para o cenário de destruição.
O panorama político geral na Venezuela, já marcado por crise econômica e instabilidade institucional, agrava a situação humanitária pós-terremoto. A ausência de uma resposta coordenada e eficaz do governo de Nicolás Maduro expõe a fragilidade do Estado em lidar com desastres naturais de grande escala, enquanto a população civil, abandonada à própria sorte, tenta sobreviver e enterrar seus mortos com dignidade. A tragédia, que já é a maior do país em décadas, escancara as fissuras de um sistema que, segundo os relatos, prioriza a demolição ao resgate.
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