O presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou como ‘traição à pátria’ a articulação do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) junto ao governo dos Estados Unidos, após o parlamentar enviar uma carta a autoridades norte-americanas pedindo a revisão das tarifas impostas ao Brasil. A reação ocorre em meio ao agravamento do impasse comercial entre os dois países, que já resultou em retaliações recíprocas e ameaça de novo tarifaço contra produtos brasileiros. A declaração foi feita durante evento oficial em Brasília, nesta quarta-feira (26), e repercutiu imediatamente nos meios políticos e diplomáticos.
Na carta, divulgada pelo próprio senador, Flávio Bolsonaro solicita que o governo dos EUA reconsidere as tarifas aplicadas ao aço e ao alumínio brasileiros, argumentando que a medida prejudica a economia nacional e pode gerar desemprego. O documento, endereçado ao secretário de Comércio dos EUA, Howard Lutnick, e ao representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, foi interpretado pelo Palácio do Planalto como uma tentativa de interferência externa na política externa brasileira. ‘Não se pode admitir que um parlamentar brasileiro peça a um governo estrangeiro que penalize o próprio país. Isso é traição à pátria’, afirmou Lula, em tom enfático.
Contexto do impasse comercial e riscos econômicos
A crise comercial teve início em março, quando o presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou tarifas de 25% sobre importações de aço e alumínio, afetando diretamente o Brasil, um dos maiores fornecedores desses produtos para o mercado norte-americano. Em resposta, o governo brasileiro adotou medidas recíprocas, como a taxação de produtos industrializados dos EUA, incluindo medicamentos e máquinas. O impasse se intensificou nas últimas semanas, com ameaças de Trump de ampliar as tarifas para outros setores, como o agropecuário, caso o Brasil não recue. Especialistas estimam que um novo tarifaço pode custar ao país até US$ 5 bilhões em exportações anuais, afetando principalmente os setores siderúrgico, automotivo e de alimentos processados.
A ação de Flávio Bolsonaro, ocorrida em 24 de julho, foi vista por analistas como uma tentativa de capitalizar politicamente o desgaste do governo Lula com a Casa Branca. O senador, que é filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, já havia se reunido com representantes do governo Trump em abril, quando defendeu a aproximação bilateral. No entanto, a carta gerou reação negativa até mesmo entre aliados do ex-presidente, que temem que a iniciativa possa ser usada pelo Planalto para desqualificar a oposição como ‘antipatriótica’. ‘O senador agiu de forma irresponsável, colocando interesses pessoais acima dos nacionais’, criticou o líder do governo no Senado, Randolfe Rodrigues (PT-AP).
Panorama político e reações no Congresso
O episódio acirrou a polarização política no Congresso, onde tramitam projetos de lei que propõem medidas de proteção à indústria nacional. Enquanto a base governista defende a manutenção das retaliações, a oposição, liderada pelo PL, pressiona por uma negociação mais flexível com os EUA. O presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), convocou reunião de líderes para discutir o tema, mas evitou comentar diretamente a carta de Flávio Bolsonaro. ‘O Brasil precisa de unidade em momentos de crise, não de ações que fragilizem nossa posição internacional’, afirmou Lira, em nota.
A situação também expõe divisões dentro da própria família Bolsonaro. Enquanto Flávio defende a aproximação com Trump, o ex-presidente Jair Bolsonaro manteve silêncio público sobre o assunto. Nos bastidores, aliados do clã avaliam que a carta pode ter sido um movimento prematuro, que agora coloca a oposição em uma posição defensiva. ‘Flávio errou ao não coordenar a ação com a bancada. Agora, o governo vai usar isso para desviar o foco das próprias falhas na política externa’, avaliou o cientista político Antonio Lavareda, em entrevista à Rádio CBN.
Enquanto isso, o Itamaraty trabalha para conter os danos diplomáticos. O chanceler Mauro Vieira afirmou que o Brasil buscará uma solução negociada, mas sem ceder a pressões externas. ‘Não aceitaremos interferências de nenhum país em nossas decisões soberanas. A carta do senador não representa a posição do governo brasileiro’, declarou. A expectativa é que uma nova rodada de negociações ocorra nas próximas semanas, mediada pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
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