Quando se fala em Ribeirão Preto (SP), a primeira imagem que vem à cabeça costuma ser a força do agronegócio e o domínio da música sertaneja. Longe do circuito comercial, no entanto, a cidade mantém uma cena roqueira ativa e movida pela paixão de músicos e fãs, que equilibram covers de clássicos e produções autorais em meio a desafios de espaço e público.
O mercado local abriga realidades diferentes. De um lado, bandas que reproduzem sucessos de grupos clássicos conseguem agenda frequente em bares. Do outro, artistas que investem em músicas autorais encontram barreiras e precisam buscar público na capital paulista. O produtor musical e colecionador de mais de 10 mil discos de vinil, Frederico Batista, acompanha o cenário de perto e organiza eventos de rock na cidade. Ele explica que o gênero hoje atua de forma independente, mas mantém uma base sólida de fãs. “Ribeirão tem bastante rock hoje, mas o sertanejo domina. As casas que investem em música priorizam outros estilos. Por isso, as bandas de rock acabam indo mais para o cover mesmo, que é o que atrai mais as pessoas. Existe uma cena autoral forte, só que vive naquele universo próprio”, afirma Batista.
A publicitária e corretora de imóveis Juliana Prado, de 44 anos, conhece bem o mercado de covers. Vocalista de duas bandas na cidade, ela canta clássicos dos Beatles e sucessos do punk com o grupo Ramoneros. A relação com os palcos começou na década de 1990 e, hoje, ela se apresenta nos bares alternativos de Ribeirão Preto. Juliana avalia que reproduzir músicas conhecidas exige muito estudo e atrai um público cativo, o que garante espaço nas casas noturnas. “A gente estuda muito para fazer igual e levar algo bem profissional para o público. A galera ama Ramones, a mulherada vai lá na frente e canta junto. O rock não perdeu espaço, ele se manteve e as pessoas persistem. É barulhento, tem atitude e energia”, destaca a vocalista.
Para quem aposta em som próprio, a rota muda. O tatuador César Malnova, de 39 anos, é vocalista da banda Igreja do Sexo, que aposta no estilo gótico com influências do punk. Formada em 2008, a banda lançou um álbum novo no início deste ano e faz a maior parte dos shows em São Paulo. “A gente acaba vivendo em um meio um pouco nichado. Na nossa região não tem muito espaço para o gótico e o som autoral é difícil. Em São Paulo, o pessoal valoriza muito mais a música própria do que o cover e até canta as letras novas”, relata Malnova.
O cenário reflete um panorama mais amplo do interior paulista, onde o agronegócio e a música sertaneja dominam a economia cultural, mas nichos como o rock encontram brechas para sobreviver. Eventos como o festival João Rock, que divulga horários e renova o som em Ribeirão Preto, ajudam a manter a chama acesa, mas a cena autoral ainda luta por visibilidade. A diversidade de estilos — do punk ao gótico, passando pelos covers de Ramones e Beatles — mostra que, apesar das barreiras, o rock segue pulsante na cidade, impulsionado por artistas e fãs que persistem na busca por espaço e reconhecimento.
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