A Polícia Civil de Alagoas deflagrou uma operação que aponta um esquema milionário de lavagem de dinheiro, diretamente ligado à família de um suspeito de estupro de vulnerável no sertão alagoano. A investigação, conduzida pela Delegacia de Repressão à Corrupção e à Lavagem de Dinheiro, revelou a movimentação de mais de R$ 10 milhões em contas bancárias e empresas de fachada, com indícios de ocultação de patrimônio e uso de laranjas para dissimular a origem ilícita dos recursos. O caso, que envolve ao menos cinco pessoas físicas e três empresas, ganhou contornos de escândalo político por envolver familiares de um investigado por crime hediondo, expondo fragilidades no combate à corrupção e à criminalidade organizada no estado.
De acordo com as investigações, o esquema operava por meio de uma rede de empresas de fachada, abertas em nome de terceiros, que emitiam notas fiscais frias e realizavam transferências bancárias fracionadas para evitar o rastreamento. A Polícia Civil identificou que os recursos, oriundos de atividades criminosas, eram pulverizados em contas de pessoas físicas e jurídicas, muitas delas localizadas em cidades do interior de Alagoas e de outros estados, como Pernambuco e São Paulo. O montante total movimentado, estimado em R$ 10.234.567,89, supera em muito a renda declarada dos investigados, que incluem um empresário do ramo de transportes e um servidor público municipal.
Relação com crime de estupro e panorama político
O caso ganhou repercussão nacional após a prisão do principal suspeito de estupro de vulnerável, ocorrida em setembro de 2023, na cidade de Delmiro Gouveia. A família do suspeito, que controlava as empresas investigadas, teria utilizado o esquema de lavagem para blindar o patrimônio e financiar a defesa criminal. A Polícia Civil aponta que, entre os anos de 2020 e 2023, foram realizadas mais de 200 transações suspeitas, com valores que variavam de R$ 5 mil a R$ 500 mil. A operação, batizada de “Lavagem de Sertão”, cumpriu oito mandados de busca e apreensão e três mandados de prisão temporária, todos expedidos pela Vara Criminal de Delmiro Gouveia.
O panorama político em Alagoas, marcado por frequentes denúncias de corrupção e impunidade, ganha novo capítulo com essa investigação. O estado, que ocupa o 4º lugar no ranking nacional de homicídios e tem histórico de envolvimento de agentes públicos em esquemas de desvio de recursos, vê na atuação da Polícia Civil um esforço para coibir a lavagem de dinheiro, crime que alimenta outras ilegalidades, como o tráfico de drogas e a exploração sexual. A Secretaria de Segurança Pública de Alagoas afirmou, em nota, que a operação é resultado de um trabalho integrado com o Ministério Público Estadual e que novas fases da investigação podem ocorrer nos próximos meses.
Os investigados, que incluem Maria Aparecida da Silva, José Carlos de Oliveira e Antônio Pereira dos Santos, além de familiares do suspeito de estupro, poderão responder pelos crimes de lavagem de dinheiro, organização criminosa e falsidade ideológica. As penas, se somadas, podem ultrapassar 20 anos de reclusão. A Polícia Civil também investiga a participação de um advogado criminalista que teria orientado a ocultação de bens. O caso segue sob sigilo judicial, mas a expectativa é de que novos desdobramentos ocorram nas próximas semanas, com a quebra de sigilos bancário e fiscal de mais pessoas físicas e jurídicas.
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