Em um pronunciamento contundente no plenário do Senado Federal, a senadora Eudócia (PL-AL) vinculou diretamente o nome do senador Renan Calheiros (MDB-AL) a um esquema de lavagem de dinheiro e adulteração de combustíveis operado pelo Primeiro Comando da Capital (PCC). A parlamentar perguntou de forma direta a Calheiros sobre eventuais relações com Ricardo Magro, apontado como um dos operadores do esquema criminoso que movimentou bilhões de reais nos últimos anos. A fala ocorre em meio a uma crise política no estado de Alagoas, onde disputas entre grupos locais se intensificam, e reacende o debate sobre a influência do crime organizado no setor de combustíveis, que responde por cerca de 8% do PIB nacional.
A senadora Eudócia afirmou que há indícios de que o esquema do PCC no mercado de combustíveis, que envolve desde a adulteração de gasolina e diesel até a sonegação fiscal, teria ramificações em Alagoas, com a participação de políticos locais. Ela citou especificamente o nome de Renan Calheiros, um dos políticos mais influentes do estado, e pediu esclarecimentos sobre sua relação com Ricardo Magro, que já foi preso em operações da Polícia Federal. “O povo alagoano merece saber se o senador tem ou teve qualquer tipo de vínculo com essa máfia que está destruindo a economia e a segurança do nosso estado”, declarou Eudócia, que é conhecida por sua atuação em pautas de combate à corrupção.
O caso ganhou repercussão nacional após a publicação de reportagens investigativas que apontam a atuação do PCC no setor de combustíveis, um dos mais lucrativos do país. Estima-se que o esquema, que opera em pelo menos 12 estados, movimente cerca de R$ 5 bilhões por ano, com prejuízos diretos aos cofres públicos e riscos à segurança dos consumidores. A adulteração de combustíveis, com a adição de solventes e outros produtos químicos, pode causar danos graves aos motores e ao meio ambiente. Além disso, a lavagem de dinheiro por meio de postos de gasolina e distribuidoras é uma das principais formas de financiamento do PCC, que expande sua atuação para o controle de rotas de abastecimento.
Panorama político e reações
A declaração de Eudócia ocorre em um momento de alta tensão no Congresso Nacional, onde a bancada de Alagoas está dividida entre aliados e opositores de Renan Calheiros. O senador, que já presidiu a Casa e é um dos principais nomes do MDB, enfrenta uma série de investigações no Supremo Tribunal Federal (STF) e no Conselho de Ética do Senado. A senadora Eudócia, que é filiada ao PL e tem base eleitoral em Maceió, aproveitou o ensejo para criticar o que chamou de “blindagem política” de Calheiros, que, segundo ela, estaria sendo protegido por acordos partidários. “Não podemos permitir que o nome de Alagoas seja associado ao crime organizado. É preciso transparência total”, afirmou.
Em resposta, Renan Calheiros negou qualquer envolvimento com o esquema e classificou a fala de Eudócia como “leviana e irresponsável”. Em nota oficial, o senador afirmou que nunca teve relações comerciais ou políticas com Ricardo Magro e que está à disposição das autoridades para esclarecer os fatos. A defesa de Calheiros também anunciou que entrará com uma representação no Conselho de Ética contra a colega, por quebra de decoro parlamentar. O episódio, no entanto, já mobiliza a opinião pública e deve pautar os debates nas próximas semanas, especialmente em um ano eleitoral, quando as disputas por cargos no Executivo e Legislativo se acirram.
O caso também reacende a discussão sobre a regulação do setor de combustíveis no Brasil. Especialistas apontam que a falta de fiscalização e a pulverização de pequenos postos e distribuidoras facilitam a atuação de organizações criminosas. Dados da Agência Nacional do Petróleo (ANP) indicam que, em 2024, foram realizadas mais de 10 mil autuações por irregularidades em postos de combustíveis, um aumento de 15% em relação ao ano anterior. A Operação “Lava Jato dos Combustíveis”, deflagrada pela Polícia Federal em parceria com o Ministério Público, já resultou na prisão de mais de 50 pessoas em todo o país, incluindo empresários e funcionários públicos.
Enquanto isso, a população de Alagoas acompanha com apreensão o desenrolar do caso. O estado, que já enfrenta altos índices de violência e corrupção, vê na denúncia de Eudócia uma oportunidade para cobrar mais transparência dos políticos locais. Organizações da sociedade civil, como o Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), já pediram a abertura de uma investigação formal no Senado. “O que está em jogo não é apenas a reputação de um político, mas a credibilidade de todo o sistema político brasileiro”, afirmou o coordenador do MCCE, João Paulo de Oliveira. A expectativa é que o caso seja levado ao plenário do Senado nos próximos dias, com a possibilidade de criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o esquema do PCC no setor de combustíveis.
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