Mil toneladas de batatas estavam empilhadas a 4,5 metros de altura em um armazém na fazenda de Kris D’haeyere há meses. Mesmo oferecendo vendê-las por apenas alguns euros a tonelada, ninguém queria comprá-las. O cenário, registrado na Bélgica, reflete uma crise que se espalha por toda a Europa, onde produtores enfrentam o colapso dos preços devido ao excesso de oferta e ao impacto de novas tarifas comerciais impostas por mercados externos.
A situação de Kris D’haeyere não é isolada. Em toda a região, agricultores acumulam estoques invendáveis, enquanto as tarifas — especialmente as aplicadas por países como os Estados Unidos e alguns parceiros asiáticos — fecham portas para exportações que antes garantiam escoamento da produção. Dados do setor indicam que a oferta de batatas na safra 2025/2026 superou a demanda em mais de 15%, agravada por condições climáticas favoráveis que elevaram a produtividade em países como França, Alemanha e Países Baixos.
Impacto econômico e social
O preço da tonelada de batata caiu para valores inferiores a 10 euros em várias regiões, muito abaixo do custo de produção, estimado em cerca de 150 euros por tonelada. Isso significa que cada tonelada vendida representa um prejuízo direto para o produtor. Em Espanha e Itália, associações agrícolas relataram que pequenos agricultores estão abandonando as lavouras, incapazes de arcar com os custos de armazenamento e transporte.
As tarifas comerciais, impostas como retaliação a políticas agrícolas europeias, atingiram especialmente as exportações de batata processada — como batatas fritas congeladas e flocos de purê —, que representam 40% do mercado externo do bloco. A Comissão Europeia reconheceu o problema em comunicado recente, mas até o momento não anunciou medidas concretas de compensação ou subsídios emergenciais.
Panorama político e reações
A crise expõe fragilidades na Política Agrícola Comum (PAC) da União Europeia, que prioriza subsídios a grandes propriedades e culturas como cereais, deixando produtores de hortifrúti mais vulneráveis a choques de mercado. Parlamentares do Partido Verde Europeu e do Grupo dos Socialistas e Democratas cobraram da presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, um plano de emergência que inclua compras públicas e distribuição de excedentes para bancos de alimentos.
Enquanto isso, organizações como a COPA-COGECA, que representa agricultores europeus, alertam que, sem intervenção rápida, milhares de propriedades familiares podem fechar as portas nos próximos meses. O caso de Kris D’haeyere — que viu seu armazém se transformar em um monumento ao desperdício — simboliza o drama de um setor que pede socorro diante de um mercado global cada vez mais hostil.
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