Famílias que ocupam uma área rural localizada após o bairro João de Barro, na zona Oeste de Boa Vista, denunciam terem sido vítimas de violência da Polícia Militar (PM) neste sábado (11). Segundo a advogada popular Auzerina Duarte, que representa as famílias, a ação ocorreu após Rodrigo de Holanda Menezes Jucá, filho do ex-senador Romero Jucá (MDB), registrar um boletim de ocorrência por invasão. A PM informou, em nota, que um dos conduzidos resistiu à abordagem, sendo necessário o uso de técnicas de contenção e algemas, observados os princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade e razoabilidade.
De acordo com a advogada, o local, chamado Acampamento Raimunda Farias e vinculado ao Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MTST), abriga cerca de 400 pessoas. O grupo ocupa a área desde 6 de julho e planeja morar lá. Rodrigo Jucá registrou o boletim de ocorrência às 15h44 de sábado, alegando que um grupo de pessoas desconhecidas invadiu, sem autorização, a propriedade rural Fazenda Rancho Alegre. A reportagem do g1 questionou se o filho do ex-senador possui título de posse do terreno, mas ele preferiu não se manifestar.
Ação policial e denúncias de violência
Segundo Auzerina Duarte, foi após o registro de Rodrigo que a PM foi ao local. Ela afirma que policiais e equipes da Empresa de Desenvolvimento Urbano e Habitacional (Emhur) chegaram ao acampamento por volta das 17h de sábado para fazer a desocupação da área, sem apresentar mandado judicial. “Quando eu perguntei sobre o mandado judicial, o fiscal da Emhur disse que com um mero boletim de ocorrência poderia retirar as pessoas com a força policial. Questionei se eles são o próprio mandado, já que não apresentaram um. Não podem chegar apenas com um B.O. feito pelo filho de um político e retirar famílias carentes de qualquer forma”, afirmou a advogada.
Vídeos enviados ao g1 pela advogada mostram quando um policial derruba um homem com um chute. Em seguida, cerca de nove agentes ficam em torno dele e ordenam que as pessoas se afastassem. Uma equipe do Choque, batalhão especializado da PM, também participou da ação com escudos e cassetetes. Pelo menos cinco viaturas militares acompanharam um fiscal da Emhur. De acordo com a advogada, o fiscal apresentou o boletim de ocorrência para justificar a desocupação das famílias. Auzerina Duarte afirma que a área ocupada é pública, e não privada.
Sobre a violência policial, a PM informou em nota que “um dos conduzidos resistiu à abordagem e desobedeceu às ordens legais emanadas pelos policiais, sendo necessário o emprego de técnicas de contenção e o uso de algemas, observados os princípios da legalidade, necessidade, proporcionalidade e razoabilidade”. A nota completa foi divulgada pela corporação.
Panorama político e social
O caso ocorre em um contexto de tensão fundiária em Roraima, onde disputas por terra envolvem grandes proprietários, movimentos sociais e o poder público. A ocupação rural, liderada pelo MTST, reflete a demanda por moradia e reforma agrária em uma região marcada por conflitos históricos. A ausência de mandado judicial para a desocupação levanta questionamentos sobre a legalidade da ação, especialmente quando envolve o filho de um ex-senador influente, como Romero Jucá. A situação expõe a fragilidade dos direitos das famílias em situação de vulnerabilidade e a necessidade de mediação institucional para evitar abusos.
Fonte: ver noticia original

