Feminicídio em série: homem que matou companheira a facadas já havia sido condenado pela morte da primeira esposa

Um caso que expõe a gravidade da reincidência em crimes de gênero: Luiz Carlos Prado, de 62 anos, apontado como autor do assassinato de Everly Rodrigues da Silva, a facadas, no último domingo (9), em Neves Paulista (SP), já havia sido condenado pelo homicídio de sua primeira esposa, Marisa Maria Prado, na década de 1990. A informação foi revelada pela filha do casal, Camila Prado, de 36 anos, em entrevista ao g1, e reacende o debate sobre a eficácia das medidas protetivas e a necessidade de políticas públicas mais rígidas para prevenir novos feminicídios.

Segundo a Polícia Civil, o caso é investigado como feminicídio seguido de suicídio, pois Luiz Carlos foi encontrado morto após o ataque. A filha, que tinha apenas cinco meses quando a mãe foi morta a tiros, conta que a verdade sobre o primeiro crime só veio à tona quando ela completou 11 anos, após o pai ser julgado e condenado a cumprir pena em regime semiaberto.

“Ele justificou o crime dizendo que ela o havia traído. Foram tiros e ele fugiu. Depois, voltou e continuou vivendo a vida como se nada tivesse acontecido. A história da minha mãe sempre foi guardada em um armário a sete chaves pela família. Minha mãe não morreu, ela foi assassinada e não merece ser esquecida”, desabafou Camila, em relato emocionado ao g1.

Camila também revelou detalhes chocantes sobre a crueldade do primeiro crime. “Quando ele fez, ele voltou para casa com ela [Marisa] ainda viva, e ele perguntou para o advogado o que fazer, daí ele [advogado] falou: ‘deixa ela em qualquer lugar e escapa’. Então, como era réu primário, ele não foi preso imediatamente”, contou.

Histórico de violência e omissão familiar

Marisa tinha apenas 20 anos e deixou duas filhas pequenas ao ser morta a tiros em São Paulo (SP). A certidão de óbito, obtida pela reportagem, indica como causa da morte “hemorragia interna traumática”. A família materna, segundo Camila, desapareceu após o crime, e as crianças foram criadas pela avó paterna.

“Da minha mãe sei muito pouco. A família dela foi embora logo depois do crime. Eles eram pessoas muito humildes e, pelo que me contava minha avó paterna, não tinham condições de cuidar de nós. Quando aquilo [o crime contra Marisa] começou a fazer parte da minha história, eu já tinha uma história, reconstruir tudo isso foi difícil”, relatou.

Aproximadamente dois anos após matar a primeira esposa, Luiz casou-se com Everly, a segunda vítima. As filhas do primeiro casamento chegaram a morar com a madrasta na infância, até a prisão do pai. O caso, agora, levanta questionamentos sobre como um condenado por feminicídio conseguiu reconstruir a vida e voltar a cometer o mesmo crime, expondo falhas no sistema de justiça e na fiscalização de reincidentes.

Especialistas ouvidos pelo g1 destacam que a reincidência em crimes de gênero é um problema estrutural, agravado pela subnotificação e pela falta de acompanhamento de agressores após o cumprimento da pena. A morte de Everly, somada ao histórico de Luiz, reforça a urgência de políticas de prevenção que incluam monitoramento eletrônico de condenados e campanhas de conscientização sobre o ciclo da violência doméstica.

O caso segue sob investigação da Polícia Civil de Neves Paulista, que deve apurar as circunstâncias do duplo crime e possíveis omissões que permitiram que a tragédia se repetisse. A sociedade, mais uma vez, se vê diante de um retrato cruel da violência de gênero, que ceifa vidas e deixa marcas profundas nas famílias.

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