A Polícia Civil do Rio de Janeiro instaurou investigação para apurar uma festa realizada no último sábado (11) em Vigário Geral, na Zona Norte da capital fluminense, que reuniu uma multidão e contou com a exibição ostensiva de fuzis por criminosos em meio ao público. Imagens do evento, que circulam nas redes sociais, mostram homens armados apontando fuzis para o alto enquanto apresentações musicais ocorriam em um palco montado na comunidade. Segundo as investigações, a celebração teria sido promovida para marcar os 19 anos de domínio da facção criminosa Terceiro Comando Puro (TCP) no chamado Complexo de Israel, conjunto de comunidades que abrange Vigário Geral, Parada de Lucas, Cidade Alta, Cinco Bocas e Pica-Pau, onde residem aproximadamente 134 mil pessoas.
Vídeos que viralizaram nas redes sociais exibem o local lotado durante horas de festa, com homens ostentando armamento de guerra, incluindo fuzis, em meio aos participantes. A Polícia Civil analisa as imagens para identificar os envolvidos e apurar as circunstâncias da realização do evento. Entre as linhas de investigação, destaca-se a identificação de quem financiou a festa, que contou com shows de artistas como o rapper Natanael Cauã Almeida de Souza, conhecido como MC Chefin, e o grupo Tá Na Mente.
Presença de chefão do TCP sob investigação
Os agentes também apuram a informação de que o traficante Álvaro Malaquias Santa Rosa, conhecido como Peixão, Alvinho ou Araão, teria participado da celebração. De acordo com informações investigadas pela polícia, o criminoso estaria no local cercado por seguranças da facção. Considerado um dos traficantes mais procurados do estado, Peixão é apontado como chefe do TCP no Complexo de Israel. Foragido da Justiça, ele acumula atualmente 20 mandados de prisão em aberto, inclusive por terrorismo, e responde por crimes como tráfico de drogas, homicídios, tortura, ocultação de cadáver, extorsão, intolerância religiosa e porte ilegal de arma de fogo. Apesar de possuir 79 anotações criminais, ele nunca foi preso.
Segundo informações obtidas pela polícia, Peixão teria patrocinado a festa realizada em Vigário Geral. O evento, amplamente divulgado nas redes sociais, levantou questionamentos sobre a atuação dos órgãos de segurança. A reportagem procurou a Secretaria de Segurança Pública, a Polícia Militar e a Polícia Civil para saber se tinham conhecimento prévio da realização da festa e por que o evento não foi impedido. Também perguntou se os setores de inteligência monitoraram ou receberam informações sobre a celebração antes de sua realização. Até a publicação desta reportagem, não houve resposta.
Panorama político e social
O episódio expõe a fragilidade do controle estatal em áreas dominadas por facções criminosas no Rio de Janeiro, onde o TCP mantém influência sobre o Complexo de Israel há quase duas décadas. A exibição pública de armamento de guerra em uma festa comunitária evidencia o poder de fogo e a impunidade de grupos criminosos, que desafiam abertamente as forças de segurança. A falta de resposta das autoridades sobre o monitoramento prévio do evento reforça críticas à atuação dos órgãos de inteligência e à capacidade de prevenção de crimes ostensivos. Enquanto isso, a população das cinco comunidades, estimada em 134 mil pessoas, permanece refém do domínio armado, em um contexto de violência urbana que demanda ações coordenadas entre os poderes Executivo, Judiciário e Legislativo para enfrentar o crime organizado e garantir a segurança pública.
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