Um esquema criminoso de venda de atestados médicos falsos está operando impunemente em Alagoas, utilizando aplicativos de mensagens para disseminar documentos forjados que causam transtornos e prejuízos a empresários locais. A prática, que envolve a comercialização de atestados por valores como R$ 40 via Pix, foi exposta por uma investigação do portal g1, que conseguiu negociar e adquirir um dos documentos fraudulentos. O perfil responsável, autodenominado “Rei dos Trampos“, utiliza dados de profissionais de saúde legítimos, como o número de registro no Conselho Regional de Medicina de Alagoas (CRM-AL), para conferir uma falsa autenticidade aos atestados, pagos a um indivíduo identificado como Wladimir Welyson Silva Nascimento.
A gravidade da situação é sentida diretamente no setor empresarial, onde a fraude compromete a produtividade e a confiança nas relações de trabalho. Uma empresária do setor de gastronomia em Maceió, que preferiu manter o anonimato, relatou ao g1 ter demitido uma funcionária por justa causa em 2023 após desconfiar de atestados médicos apresentados. A funcionária havia exibido um documento com o Código Internacional de Doenças (CID) A09, indicativo de diarreia e gastroenterite, mas seus sintomas relatados não correspondiam à descrição médica. Após verificar em uma unidade de saúde que a funcionária não havia sido atendida, a empresária confirmou a fraude, evidenciando o impacto direto dessas práticas ilícitas nos negócios.
A investigação do g1 detalhou o modus operandi do “Rei dos Trampos”. Após a negociação de um atestado no valor de R$ 40, o pagamento foi efetuado via Pix para a conta de Wladimir Welyson Silva Nascimento. O documento adquirido utilizava informações de uma médica alagoana com registro regular no CRM-AL, cuja identidade está sendo preservada. A única alteração no nome da profissional era uma letra: de ‘z’ para ‘s’. O criminoso ainda orientou que, após a impressão, fosse feita uma assinatura rabiscada sobre o timbre antes da entrega à empresa, numa tentativa de simular autenticidade. A médica envolvida, ao ser contatada pela reportagem, negou qualquer participação no esquema e informou que já adotou as medidas cabíveis, incluindo o registro de um Boletim de Ocorrência e a comunicação formal ao CRM para que os responsáveis sejam identificados e punidos.
Panorama Político e Social: Ameaça à Integridade e Desafios Regulatórios
Este cenário em Alagoas não é um incidente isolado, mas um reflexo preocupante de desafios mais amplos que permeiam a sociedade brasileira e o ambiente digital. A facilidade com que documentos falsos são comercializados por meio de plataformas de mensagens e pagos via Pix ressalta a urgência de uma fiscalização mais robusta sobre o uso de tecnologias digitais para fins ilícitos. A proliferação de fraudes como esta mina a confiança nas instituições médicas e nas relações de trabalho, gerando um ambiente de desconfiança mútua entre empregadores e empregados. O uso indevido de dados de profissionais de saúde legítimos, como o número do CRM, levanta questões sérias sobre a segurança de informações profissionais e a necessidade de mecanismos mais eficazes para proteger a reputação e a integridade de médicos e outros profissionais.
A inação das autoridades, conforme revelado pela reportagem, agrava a situação. A Polícia Civil de Alagoas informou que não recebeu denúncia formal e, portanto, ainda não investiga o caso, enquanto o CRM optou por não se pronunciar sobre a prática criminosa. Essa lacuna na resposta institucional permite que o esquema continue a operar, com o suspeito divulgando abertamente cartazes nas redes sociais que anunciam a venda de “atestado médico para curtir o final de semana”, sem a necessidade de receita médica. Este panorama geral aponta para a necessidade de uma ação coordenada entre órgãos de segurança pública, conselhos de classe e plataformas digitais para combater a criminalidade online e proteger a integridade do mercado de trabalho e da saúde pública. A ausência de uma resposta formal e investigativa imediata não apenas perpetua a impunidade, mas também sinaliza uma vulnerabilidade sistêmica que pode encorajar outras formas de fraude e desrespeito às leis.
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