O governo brasileiro acionou a Lei da Reciprocidade Econômica contra os Estados Unidos, mas integrantes do Palácio do Planalto afirmam que a medida deve ser encarada, neste momento, como um instrumento de negociação, e não como a aplicação imediata de retaliações ao tarifaço imposto pela administração americana. A iniciativa representa uma resposta dura e um posicionamento político do Brasil, mas abre um processo que ainda levará tempo antes da eventual adoção de contramedidas, conforme apuração do blog da jornalista Andréia Sadi, no G1.
O objetivo, segundo fontes do governo, é dar uma “cutucada” nos Estados Unidos para tentar levar Washington de volta a uma negociação baseada em critérios técnicos e comerciais. Na avaliação do governo brasileiro, as tarifas impostas pelos americanos foram uma decisão essencialmente política. A leitura é que a atuação dos Estados Unidos em relação ao Brasil entrou em “modo eleição” e passou a considerar a disputa presidencial brasileira como parte de um movimento mais amplo pelo comando político da América Latina.
Processo de contramedidas pode levar até 60 dias
Com o processo aberto, a Secretaria-Executiva da Câmara de Comércio Exterior (Camex) terá até 30 dias, prorrogáveis pelo mesmo período, para elaborar um relatório sobre o enquadramento das medidas americanas nas hipóteses previstas pela Lei da Reciprocidade. Só depois disso poderá haver avanço na discussão sobre eventuais contramedidas. O rito está previsto na regulamentação da lei.
Durante esse período, o Itamaraty notificará os Estados Unidos e manterá abertas as consultas diplomáticas. Para integrantes do governo, esse intervalo pode ajudar a reconstruir algum canal de negociação. A avaliação no Palácio do Planalto, porém, é que a crise entrou em uma nova fase. Em um primeiro momento, a interlocução direta entre os presidentes Lula e Donald Trump teria ajudado a reduzir o tom de integrantes do governo americano.
Nova fase da crise e o papel do Departamento de Estado
Agora, integrantes do governo brasileiro consideram que mesmo uma nova conversa no nível presidencial pode não ser suficiente para mudar o rumo da disputa. A percepção é que o Departamento de Estado passou a comandar o processo e que o secretário de Estado, Marco Rubio, tornou-se o personagem central na condução da política americana para o Brasil. O entendimento é que os Estados Unidos estão de olho na disputa pelo controle político da América Latina, e que o Brasil ocupa uma posição estratégica nesse cenário.
Nos bastidores, integrantes do governo afirmam que o Brasil não buscou uma guerra comercial e continua disposto a negociar. Ao mesmo tempo, defendem que a resposta dura é necessária para demonstrar que o país não aceitará imposições unilaterais. A medida ocorre em um contexto de escalada tarifária global, com impactos diretos sobre cadeias produtivas e exportações brasileiras.
Especialistas apontam que a Lei da Reciprocidade Econômica, sancionada em 2025, foi desenhada justamente para dar ao Executivo ferramentas de resposta a barreiras comerciais de outros países, sem que isso signifique, necessariamente, uma escalada imediata. O governo brasileiro, ao acionar a lei, busca equilibrar firmeza e pragmatismo, mantendo canais abertos para uma solução negociada.
Enquanto isso, a indústria nacional pressiona por um acordo comercial que evite prejuízos maiores, mas o governo adia decisões definitivas, apostando na negociação como caminho preferencial. A expectativa é que o relatório da Camex, a ser concluído em até 60 dias, traga subsídios técnicos para a decisão final, que pode incluir desde a aplicação de tarifas retaliatórias até a abertura de novos diálogos bilaterais.
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