O Governo Federal estuda bloquear recursos financeiros de apostas ilegais como parte de um conjunto de ações em elaboração para dificultar a operação de plataformas não autorizadas e ampliar a fiscalização sobre o mercado de apostas online no Brasil. A medida, ainda em fase de análise por órgãos como o Ministério da Fazenda e a Secretaria de Prêmios e Apostas, visa desarticular o fluxo de capitais que alimenta o setor clandestino, responsável por movimentar bilhões de reais sem qualquer controle estatal ou proteção ao consumidor.
De acordo com fontes do governo ouvidas pela reportagem, a estratégia envolve o rastreamento e o congelamento de valores depositados em contas bancárias e carteiras digitais ligadas a sites de apostas não regulamentados. A proposta se inspira em mecanismos já adotados no combate à lavagem de dinheiro e ao crime organizado, como o bloqueio de ativos determinado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). A expectativa é que a medida seja formalizada por meio de uma portaria interministerial nos próximos meses, após consulta pública e ajustes jurídicos.
Panorama do mercado de apostas no Brasil
O mercado de apostas online no Brasil cresceu exponencialmente nos últimos anos, impulsionado pela popularização de plataformas estrangeiras e pela falta de uma regulação clara até 2023. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e de associações do setor indicam que mais de 20 milhões de brasileiros já realizaram algum tipo de aposta virtual, movimentando cerca de R$ 12 bilhões anuais. Desse total, estima-se que 40% circulem em sites não autorizados, sem qualquer garantia de pagamento de prêmios ou proteção contra fraudes.
A ausência de fiscalização efetiva também abre brechas para a evasão de divisas e o financiamento de atividades ilícitas, como o tráfico de drogas e a lavagem de dinheiro. O bloqueio de recursos, nesse contexto, é visto como uma ferramenta de impacto imediato para sufocar financeiramente as operações clandestinas, complementando outras iniciativas como a criação de um cadastro nacional de plataformas autorizadas e a exigência de certificação de sistemas de jogos.
Impactos econômicos e sociais
Especialistas consultados apontam que a medida pode ter efeitos profundos na economia digital brasileira. O economista Carlos Alberto dos Santos, da Universidade de São Paulo (USP), destaca que o bloqueio de recursos de apostas ilegais pode redirecionar parte do consumo para plataformas regulamentadas, aumentando a arrecadação tributária e gerando empregos formais no setor. “Estima-se que o governo possa arrecadar até R$ 2 bilhões por ano com a tributação de apostas legais, valor que hoje é perdido para o mercado paralelo”, afirma.
Por outro lado, a medida levanta preocupações sobre a privacidade dos usuários e o risco de bloqueios indevidos. A Associação Brasileira de Defesa do Consumidor (Proteste) alerta que é necessário garantir mecanismos de contestação e transparência para evitar que apostadores comuns tenham seus recursos congelados por engano. “O governo precisa equilibrar o combate à ilegalidade com a proteção dos direitos dos cidadãos”, ressalta a entidade em nota.
Reações políticas e próximos passos
A proposta gerou reações diversas no Congresso Nacional. Deputados da base aliada, como o deputado federal João Silva (PT-SP), defendem a medida como necessária para “proteger a economia popular e combater a criminalidade”. Já parlamentares de oposição, como o senador Marcos Pereira (Republicanos-SP), questionam a eficácia da ação e alertam para possíveis excessos. “Bloquear recursos sem decisão judicial pode criar um precedente perigoso para a intervenção estatal na economia”, argumenta.
O governo planeja realizar audiências públicas nos próximos 60 dias para discutir os detalhes técnicos da proposta, que deverá ser submetida à análise do Ministério Público Federal (MPF) e do Banco Central do Brasil. Enquanto isso, a Secretaria de Prêmios e Apostas já iniciou um mapeamento das principais plataformas ilegais em operação no país, com o objetivo de priorizar os alvos do bloqueio.
A iniciativa se alinha a outras ações recentes do governo para regulamentar o setor, como a liberação de R$ 17 bilhões do FGTS para aliviar o endividamento de trabalhadores e o envio de alertas para celulares roubados com exigência de devolução pelos Correios. Ambas as medidas, assim como o bloqueio de recursos de apostas, fazem parte de uma estratégia mais ampla de modernização da gestão pública e combate a práticas ilegais que afetam a economia e a segurança dos cidadãos.
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