O governo Lula acredita que a recente decisão de Donald Trump de classificar facções como terroristas pode ser usada no Senado para destravar pautas de interesse do governo que guardam alguma relação com o tema. A estratégia, revelada pelo Painel da Folha de S.Paulo em 5 de junho de 2026, busca aproveitar a tensão diplomática para acelerar a aprovação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública e do Projeto de Lei (PL) das terras raras, ambos considerados prioritários pela administração federal.
A PEC da Segurança, que tramita no Congresso Nacional, propõe mudanças estruturais no sistema de segurança pública brasileiro, incluindo a federalização de investigações e o fortalecimento de órgãos como a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal. Já o PL das terras raras visa regulamentar a exploração e o beneficiamento desses minerais estratégicos, essenciais para a produção de tecnologias limpas e equipamentos militares, setor no qual o Brasil possui uma das maiores reservas do mundo.
A classificação de facções criminosas como organizações terroristas por Donald Trump gerou reações mistas no cenário internacional. Enquanto alguns países veem a medida como um passo necessário no combate ao crime organizado transnacional, outros alertam para possíveis abusos e interferências em soberanias nacionais. No Brasil, a decisão foi recebida com cautela pelo Itamaraty, mas o governo Lula enxerga nela uma janela de oportunidade para sensibilizar senadores sobre a urgência de modernizar a legislação de segurança e de proteção de recursos estratégicos.
O panorama político no Senado, onde a base governista enfrenta resistências de setores da oposição e de partidos de centro, torna a articulação ainda mais complexa. Líderes do governo já iniciaram conversas informais com relatores e presidentes de comissões para incluir a discussão das pautas na pauta do plenário, aproveitando o clima de alerta gerado pela decisão de Trump. A expectativa é que a pressão internacional e a necessidade de resposta coordenada contra o crime organizado possam unir diferentes espectros políticos em torno de medidas consideradas urgentes.
Especialistas em segurança pública e geopolítica apontam que a estratégia do governo pode ser arriscada, pois a associação direta entre facções brasileiras e terrorismo internacional ainda é controversa e carece de evidências robustas. No entanto, a administração Lula aposta que o debate sobre a PEC e o PL das terras raras ganhe tração justamente por estarem ligados, ainda que indiretamente, ao tema da segurança nacional e da soberania sobre recursos estratégicos.
O desfecho dessa articulação dependerá da capacidade do governo de construir consensos no Senado e de evitar que a pauta seja sequestrada por interesses partidários ou por uma escalada retórica com os Estados Unidos. Enquanto isso, a decisão de Donald Trump segue repercutindo, e o Brasil observa atentamente os próximos passos da Casa Branca, enquanto tenta transformar uma potencial crise diplomática em avanço legislativo.
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