Há 52 anos, a Copa do Mundo chegou ao Acre pelo rádio, TV e avião: a saga da transmissão que uniu gerações

Quem acompanha uma Copa do Mundo pelo celular atualmente talvez nem imagine que, há 52 anos, os acreanos precisavam esperar um dia inteiro para assistir aos jogos da Seleção Brasileira e em preto e branco. Antes da televisão chegar ao estado, a emoção do torneio era vivida apenas pelo rádio. O historiador e cineasta acreano Adalberto Queiroz, de 73 anos, relembra que a chegada das primeiras imagens da Copa no estado marcou a geração e ocorreu em frente ao Palácio Rio Branco. Já o historiador, jornalista e membro da Academia Amazonense de Letras, Abrahim Baze, que trabalhou na antiga TV Acre, detalha a operação logística que envolvia o transporte de fitas de avião entre Manaus e Rio Branco.

O que hoje cabe na palma da mão, em 1974 mobilizou centenas de pessoas em torno de uma televisão. As primeiras transmissões aconteceram durante a Copa do Mundo daquele ano, disputada na Alemanha. A então TV Acre, atual Rede Amazônica, exibiu os jogos em praça pública, o que levou centenas de pessoas para o Centro da capital acreana. Contudo, as partidas não eram ao vivo. As imagens eram gravadas e transportadas de avião até Rio Branco, onde eram exibidas pela emissora no dia seguinte. Mesmo com o atraso, a novidade despertou a curiosidade e, para muitos acreanos, aquele foi o primeiro contato com a TV.

“Antes era tudo pelo rádio. Lembro que na Copa de 1970 todo mundo acompanhava desse jeito. Quando o Brasil perdia, todo mundo chorava. Quando soubemos que a televisão tinha chegado ao Acre, em 1974, corremos para a praça. Até hoje lembro o quanto vibramos”, recorda Queiroz. “Todo mundo queria saber como aquilo funcionava. Tinha gente que nem sabia que existia uma televisão. Lembro que era uma TV de umas 22 polegadas, mas virou um acontecimento. Uns sentavam no chão e outros até levavam cadeira para assistir”, acrescenta.

Viagem das fitas

Segundo Abrahim Baze, cerca de 3,5 mil fitas circularam de avião pela Amazônia durante a Copa. “Tínhamos um funcionário que levava a fita ao aeroporto, porém, dependíamos da colaboração de passageiros para ela chegar ao destino. Informávamos o nome do passageiro, a roupa que ele estava usando e outras características para que a fita fosse localizada quando chegasse a Rio Branco”, conta. A operação dependia da boa vontade de viajantes comuns, que se tornavam elos essenciais na corrente de transmissão dos jogos.

O panorama político e social da época também ajuda a entender o impacto. Em 1974, o Brasil vivia sob a ditadura militar, e a Copa do Mundo era um dos poucos momentos de união nacional, com forte apelo popular. No Acre, estado então isolado geograficamente e com infraestrutura limitada, a chegada da televisão representou não apenas um avanço tecnológico, mas também uma janela para o mundo. A transmissão dos jogos em praça pública, com atraso de um dia, transformou a experiência coletiva: famílias inteiras se reuniam, levavam cadeiras e compartilhavam a emoção do futebol, em um ritual que fortalecia laços comunitários.

Hoje, com a transmissão ao vivo por celular e internet, a diferença é abissal. Mas a memória de Adalberto Queiroz e Abrahim Baze resgata um capítulo fundamental da história da comunicação no Acre, mostrando como a tecnologia, mesmo precária, foi capaz de conectar pessoas e gerar momentos de alegria coletiva. A Copa de 1974, com suas fitas transportadas de avião e exibidas em preto e branco, marcou o início de uma nova era para os acreanos.

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