O avanço da Inteligência Artificial (IA) por meio dos resumos que buscadores oferecem na internet vem derrubando o tráfego direto de internautas em sites jornalísticos, prejudicando o financiamento do jornalismo profissional no Brasil. Isso ocorre porque parte dos usuários tem deixado de clicar nos links diretos dos sites, restringindo a pesquisa aos resumos das IAs. A tendência, que ganhou força a partir de maio de 2024 com o AI Overviews do Google (resumos gerados por IA, em português), preocupa especialistas e entidades do setor, que veem na tecnologia um risco adicional à sustentabilidade econômica da imprensa e à qualidade da informação disponível à população.
Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, a novidade tem ainda o potencial de prejudicar a integridade da informação que circula no país, em meio à proliferação das fake news impulsionadas pelas mesmas plataformas por trás das IAs que dominam o mercado. A redução do tráfego direto afeta diretamente a receita publicitária e o modelo de negócios de veículos de comunicação, que dependem do acesso dos leitores para gerar receita e manter equipes de reportagem.
Panorama político e o Marco Regulatório da IA
No cenário político, um projeto de lei (PL 2338 de 2023) em tramitação na Câmara, o Marco Regulatório da IA, prevê que as plataformas digitais paguem pelos direitos autorais das obras e reportagens usadas pela tecnologia, o que poderia fortalecer o jornalismo profissional frente à crise no setor. A proposta, no entanto, não avançou no último semestre, apesar da prioridade anunciada ao projeto pelo presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB). A lentidão na votação é vista como um revés para os veículos de comunicação, que esperam na regulamentação uma forma de compensação pelo uso não autorizado de conteúdo jornalístico.
O debate ocorre em um momento em que a liberdade de imprensa está em queda nas democracias, como alertou a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) em relatório recente. A combinação de crise financeira, avanço tecnológico e ataques à credibilidade da imprensa coloca o jornalismo profissional em uma encruzilhada, exigindo respostas rápidas tanto do poder público quanto das empresas de comunicação.
Enquanto isso, iniciativas como a plataforma que estimula denúncias contra censuras a jornalistas e a rede de jornalistas pretos que oferece formação em segurança digital mostram que a categoria busca alternativas para se proteger e se adaptar. Mas, sem uma solução estrutural para o financiamento, o futuro do jornalismo profissional no Brasil permanece incerto, com impactos diretos para a democracia e o direito à informação.
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