A Justiça de São Paulo condenou, nesta quarta-feira (1º), quatro homens acusados de integrar uma organização criminosa voltada ao comércio ilegal de armas de fogo e munições na região central da capital, incluindo a área conhecida como Cracolândia. Entre os condenados estão Rubens Alexandre Bezerra, ex-guarda civil metropolitano (GCM), apontado como articulador do esquema, e Elias Silvestre da Silva, GCM da ativa. Também foram sentenciados Edno Sousa da Silva e Odair José Gonçalves Rodrigues. A decisão, proferida pela 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital, fixou penas que variam de 11 a 16 anos de prisão, todas em regime inicial fechado. Um quinto acusado, o GCM Ednaldo de Almeida Passos, foi absolvido por falta de provas.
A ação penal teve origem na operação Salus et Dignitas, deflagrada em agosto de 2024 pelas forças de segurança do estado para desarticular uma rede criminosa controlada pelo PCC na região da Cracolândia. Na ocasião, Rubens Alexandre Bezerra foi preso por suspeita de integrar milícia armada que chegou a cobrar R$ 3 milhões de propina de comerciantes em troca de proteção. As investigações do Ministério Público revelaram que o grupo mantinha uma estrutura estável e duradoura para negociar clandestinamente armas e munições, com negociações frequentes, intermediação de compradores e até um esquema para desviar armamentos antes que fossem oficialmente recolhidos pela Campanha do Desarmamento.
Esquema na Campanha do Desarmamento
Segundo a sentença do juiz Antonio Carlos Costa Pessoa Martins, a organização criminosa se aproveitava da estrutura da Campanha do Desarmamento para obter armas que seriam entregues ao poder público para destruição. O esquema consistia em desviar esses armamentos antes do recolhimento oficial, alimentando o mercado ilegal na região central de São Paulo. Para o magistrado, a organização funcionava de forma permanente, com Rubens Alexandre Bezerra como figura central. Ele recebeu a maior pena: 16 anos, 5 meses e 5 dias de prisão. Edno Sousa da Silva, Odair José Gonçalves Rodrigues e Elias Silvestre da Silva tiveram penas fixadas entre 11 e 15 anos de reclusão.
Além das penas de prisão, o juiz decretou a perda dos cargos públicos dos condenados que integravam a GCM. A decisão também absolveu Ednaldo de Almeida Passos, por falta de provas. Segundo a sentença, registros de conversas extraídos do celular de Rubens indicavam apenas dois contatos, com mais de um ano de intervalo, entre ele e Ednaldo. Para o magistrado, os diálogos revelavam apenas consultas sobre munições, sem comprovação de compra, venda ou participação efetiva no comércio ilegal.
O caso expõe a fragilidade dos mecanismos de controle sobre armamentos públicos e a infiltração do crime organizado em corporações de segurança. A condenação ocorre em meio a um cenário de aumento da violência na região da Cracolândia, onde disputas entre facções criminosas e milícias têm se intensificado. A operação Salus et Dignitas, que deu origem à ação penal, foi uma das maiores já realizadas na região, mirando não apenas o tráfico de armas, mas também a atuação de milícias que extorquiam comerciantes locais.
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