Justiça volta a prender ex-marido de Maria da Penha por descumprir medida protetiva após entrevista à TV Record

O ex-marido de Maria da Penha, mulher que inspirou a lei brasileira de combate à violência doméstica, foi preso neste domingo (9/8), em Natal, no Rio Grande do Norte, por descumprimento de medidas preventivas concedidas em favor de sua ex-esposa e das duas filhas. A prisão ocorreu após Marco Antônio Heredia Viveros conceder uma entrevista à TV Record, que seria exibida no programa Domingo Espetacular, o que violou decisão judicial que o proibia de divulgar informações sobre o processo e de propagar o nome ou a imagem da ex-mulher e das filhas em qualquer ambiente virtual.

O pedido de prisão foi feito pelo Ministério Público do Ceará (MPCE), que entendeu que a entrevista descumpria a medida cautelar expedida em 2024 pelo Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Fortaleza. A ordem judicial impedia Viveros de mencionar o caso ou expor a imagem de Maria da Penha e das filhas em mídias sociais, aplicativos ou qualquer plataforma digital. O juiz Cesar Morel Alcantara acolheu o pedido do MPCE e determinou a prisão preventiva, que foi executada pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público do Rio Grande do Norte.

A entrevista de Viveros foi amplamente divulgada nas redes sociais como parte de uma reportagem que também incluiria uma entrevista com Maria da Penha. Em um trecho divulgado, o repórter Roberto Cabrini pergunta a Viveros sobre o crime pelo qual foi condenado, e ele responde, em edição: “Afirmar é muito fácil”. O MPCE considerou que as chamadas veiculadas em plataformas digitais caracterizavam o descumprimento da determinação judicial, uma vez que Viveros havia sido formalmente notificado das restrições e das consequências legais em caso de violação.

Além da prisão, a Justiça determinou a retirada imediata do ar de todos os conteúdos relacionados à entrevista e proibiu a veiculação da reportagem. A BBC News Brasil procurou a defesa de Viveros, mas não obteve manifestação oficial até a publicação desta matéria. No entanto, um de seus advogados, Otacilio de Paula, criticou a prisão em redes sociais, questionando: “Por que não podemos ouvir Marcos Heredia? Por que só ela pode falar?”.

O crime que originou a lei

O caso de Maria da Penha é um marco na luta contra a violência doméstica no Brasil. Ela ficou paraplégica após levar um tiro na coluna, disparado por Viveros, em 1983. Após anos de impunidade, o caso ganhou repercussão internacional e, em 2006, o Estado brasileiro foi condenado pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos por negligência. A pressão resultou na criação da Lei Maria da Penha (Lei 11.340/2006), sancionada em 7 de agosto de 2006, que completou 20 anos na última sexta-feira (7/8) e é considerada uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento à violência doméstica e familiar contra a mulher.

A nova prisão de Viveros ocorre em um contexto de endurecimento das medidas protetivas e de maior rigor no cumprimento das decisões judiciais relacionadas à violência doméstica. O episódio também reacende o debate sobre os limites da liberdade de expressão em casos que envolvem vítimas de violência, especialmente quando há medidas cautelares em vigor. A decisão judicial reforça a importância de proteger a integridade psicológica e a privacidade das vítimas, mesmo diante de tentativas de revisão pública do caso.

O caso ganha ainda mais relevância em um momento em que o país discute políticas de enfrentamento à violência contra a mulher, com a necessidade de ampliar a efetividade das medidas protetivas e de garantir que agressores não utilizem meios de comunicação para intimidar ou expor vítimas. A prisão de Viveros, portanto, não é apenas um desdobramento jurídico, mas um símbolo da luta contínua por justiça e proteção às mulheres no Brasil.

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