Lobbies de grandes grupos econômicos travam fim da escala 6×1 e programa Move Brasil, denuncia ministro Boulos

O ministro das Cidades, Guilherme Boulos, denunciou nesta quinta-feira (26) que lobbies de grandes grupos econômicos e instituições financeiras estão travando duas pautas centrais do governo federal: o fim da escala de trabalho 6×1 e o programa habitacional Move Brasil. Em entrevista coletiva, Boulos afirmou que os bancos dificultam o acesso ao crédito do programa, enquanto setores empresariais resistem à redução da jornada de trabalho, proposta que tramita no Congresso Nacional com forte oposição.

Segundo o ministro, o programa Move Brasil, lançado para ampliar o acesso à moradia popular, enfrenta entraves operacionais impostos por grandes bancos, que condicionam a liberação de financiamentos a taxas de juros elevadas e exigências burocráticas excessivas. “Os mesmos grupos que lucram com a especulação imobiliária agora tentam inviabilizar um programa que pode beneficiar milhões de brasileiros”, declarou Boulos, citando dados do Ministério das Cidades que apontam que apenas 12% das famílias elegíveis conseguiram acessar o crédito desde o lançamento.

Panorama político e resistência empresarial

A crítica de Boulos ocorre em meio a um cenário de intensa disputa política no Congresso, onde a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que prevê o fim da escala 6×1 enfrenta resistência de bancadas ligadas ao setor produtivo. O ministro destacou que a jornada de 44 horas semanais, com um único dia de descanso, é uma das mais desgastantes do mundo e que sua extinção é uma demanda histórica dos movimentos sindicais. “Não é aceitável que o Brasil mantenha uma escala que adoece trabalhadores enquanto países vizinhos já avançaram para jornadas de 40 ou 36 horas”, afirmou.

Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) indicam que a redução da jornada poderia gerar até 3 milhões de novos postos de trabalho, mas entidades patronais, como a Confederação Nacional da Indústria (CNI), argumentam que a medida elevaria custos e prejudicaria a competitividade. Boulos rebateu: “Os mesmos argumentos foram usados contra a redução da jornada de 48 para 44 horas, em 1988, e o que vimos foi um aumento da produtividade.”

O programa Move Brasil, por sua vez, prevê a construção de 2 milhões de unidades habitacionais até 2028, com subsídios do governo federal e parcerias com estados e municípios. No entanto, a lentidão na liberação de recursos por parte dos bancos públicos e privados tem sido apontada como o principal gargalo. O ministro prometeu levar o caso ao Conselho Monetário Nacional (CMN) e ao Banco Central para cobrar maior agilidade. “Não podemos permitir que o lucro dos bancos se sobreponha ao direito à moradia”, concluiu.

A declaração de Boulos ecoa denúncias anteriores de movimentos sociais, como o MTST, que recentemente foi alvo de ação do Ministério Público por invasão à sede do Itaú na Faria Lima, em protesto contra as taxas de juros. O episódio evidencia a tensão entre o governo e o setor financeiro, que também é criticado por sua atuação no programa habitacional.

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